quarta-feira, 8 de maio de 2013

O Rana Plaza é aqui
 ou  “Meu Tipo Inesquecível”
 
 Quarta-feira, 8 de maio de 2013
coluna EMPRESA-CIDADÃ
Paulo Márcio de Mello*
 
u      De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), há no mundo 21 milhões de vítimas de trabalho escravo. Em 2012, eram 1,8 milhão no Brasil e demais países da América Latina, 11,7 milhões no Sudeste asiático, 3,7 milhões na África, 1,6 milhão na Ásia (exclusive o Oriente Médio e o Sudeste Asiático), 1,5 milhão na Europa e América do Norte e 600 mil no Oriente Médio. As mulheres são as mais atingidas, reunindo 11,4 milhões de vítimas, equivalentes a 54% do total.
 
u      Brasil, Bolívia, Peru, China, Índia, Paquistão, Etiópia, Nigéria, Zâmbia, Jordânia e Líbano estão incluídos na meta da OIT, de resgatar cerca de 6 milhões das vítimas desta condição, até 2015, ao custo estimado de US$15 milhões.
 
u      De acordo com a OIT, o setor privado reúne a maior parte dos empregadores de pessoas em situação de trabalho escravo e, apesar da existência de legislação que o pune na maior parte dos países, as penas não oferecem o rigor necessário para dissuadir os transgressores. No Brasil, a punição para quem se utiliza do trabalho em situação de escravidão compreende o pagamento de multa, dos salários devidos e indenizações, tanto para reparar danos causados às vítimas, quanto à sociedade.
 
u      No Congresso, tramita a Proposta de Emenda Constitucional (PEC do Trabalho Escravo), já votada na Câmara, que prevê a expropriação de terras rurais e urbanas de quem comprovadamente se utilize de trabalho escravo. Outra penalidade existente no Brasil é a inclusão de infratores, a partir do auto de infração lavrado pela fiscalização, na “lista suja” do Ministério de Trabalho e Emprego (MTE). Incluído nesta lista, é interditado o acesso do infrator ao crédito oferecido por instituições financeiras públicas.
 
u      Em 28 de janeiro, no estado de São Paulo, foi sancionada a Lei 1034, que cassa a inscrição da empresa infratora no cadastro de contribuintes do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), por até dez anos. Em março, 28 trabalhadores de nacionalidade boliviana foram resgatados dee uma oficina de confecções, na zona Leste da cidade de São Paulo, pela fiscalização do TEM, do Ministério Público do Trabalho e da Receita Federal.
 
u      A oficina fornecia para o Grupo Gep, responsável pelas marcas Gap, Cori, Emme e Luigi Bertolli. A empresa foi autuada pelo MPT. Em depoimento na Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Cidadania, da Participação e das Questões Sociais (CDD), da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, a empresa repetiu o bordão surrado de que “não tinha conhecimento” de que fornecedores subcontrataram outra empresa para confeccionar as peças e que contratou uma auditoria internacional, para verificar sua cadeia de produção, além de ter reduzido o número de fornecedores.
 
u      Enquanto não para de crescer a contagem de vítimas do desabamento do Rana Plaza, em Bangladesh, onde funcionavam oficinas precárias de fornecedores de grifes, como a espanhola Mango, a irlandesa Primark, a canadense Loblaw, distribuidora da indústria de vestuário Joe Fresh, as inglesas Tesco, Sainsbury’s e Next, a italiana Benetton e as norte-americanas H&M e Walmart, além da própria Gap, no centro da maior cidade do país vítimas do trabalho escravo, principalmente imigrantes, aguardam por libertação. Afinal, o Rana Plaza também é aqui.
 
Meu tipo inesquecível
 
Na minha adolescência, fui leitor assíduo da revista "Seleções de Reader’s Digest”. Uma seção me agradava especialmente, intitulada "Meu Tipo Inesquecível”. Trazia sempre um texto sobre alguém que, por atributos peculiares de personalidade, de forma profunda, marcava a vida de quem então relatava os atributos que faziam do “tipo inesquecível” uma personagem importante.
 
Este é o 13º ano em que assino a coluna Empresa-Cidadã, publicada pela primeira vez em 2001, no Monitor Mercantil. Ao longo de mais de 600 edições, jamais percebi qualquer limitação de opinião ou crítica, mesmo quando direcionada a grupos poderosos. Este espaço, alternativo às conhecidas posições do oligopólio da comunicação (ministro Joaquim Barbosa já o disse...), mantem o oxigênio da autêntica liberdade de imprensa.
 
Conheci no Monitor Mercantil, com sua vitalidade, humildade, alegria e capacidade de entusiasmar, além de apurado senso de humor, a liderança maior que, corajosamente, preservou esta trincheira. Acúrcio, o “meu tipo inesquecível”.
 
Paulo Márcio de Mello
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
 
A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001,
toda quarta-feira, no centenário jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
Através dela, são apresentados casos de empreendedores e empresas, pesquisas, resenhas, editais e agendas, referentes a responsabilidade social, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Rana Plaza. Até quando? 
                                                                                                                        As etiquetas “made in” Bangladesh, Vietnam, El Salvador, Honduras, China, podem esconder mais do que pechinchas.
Podem esconder a Vida. Como no Rana Plaza.


blog do professor paulo márcio
 
economia&arte
 
 Quarta-feira, 1º de maio de 2013
coluna EMPRESA-CIDADÃ
Paulo Márcio de Mello
 
u      Há pouco mais de uma semana, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou o relatório “The prevention of occupational diseases” (disponível também em espanhol ou francês, em www.ilo.org/publns), através do qual alerta para a morte de mais de 2 milhões e 340 mil pessoas a cada ano. São vítimas da pandemia de acidentes ou doenças contraídas por exposição a algum fator de risco relacionado ao trabalho.
 
u      Deste total, cerca de 320 mil óbitos acontecem em consequência de acidentes e mais de 2 milhões devidos a enfermidades do trabalho. São números que impressionam, com a média acima de 6.400 óbitos, diariamente! Ocorrem também mais de 160 milhões de enfermidades anualmente derivadas do trabalho, que não matam, mas maltratam.
 
u      A OIT estima que mais de 6,6 milhões de trabalhadores estejam expostos a riscos como pó de sílica (utilizada na produção de vidro e do cimento), que pode levar a pneumoconiose, ocasionando falta de ar, endurecimento do tecido pulmonar e até falência respiratória. Doenças musculoesqueléticas representam mais de 10% dos casos de incapacidade, por perda de movimentos. Podem atingir nervos, tendões, músculos e a coluna.
 
u      Transtornos mentais ou comportamentais, outro foco da OIT, segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), representaram cerca de 9% dos 166,4 mil casos de auxílios-doença concedidos no Brasil, no ano anterior. Entre eles, figura com destaque a depressão, com mais de 5,5 mil casos de episódios depressivos ou transtorno recorrente.
 
u      Além dos dramas pessoais, enfermidades como estas oneram os sistemas de saúde e previdenciário com encargos financeiros de cerca de US$ 2,8 trilhões anuais, cerca de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.
 
u      No dia seguinte ao da divulgação do relatório da OIT, publicado por ocasião do Dia Mundial da Segurança e Saúde do Trabalho, ocorreu a tragédia do edifício Rana Plaza, que desabou com os seus oito andares, em Savar, subúrbio de Dacca, capital de Bangladesh. Na queda, morreram mais de 390 trabalhadores.
 
u      O Rana Plaza era ocupado por um número de trabalhadores entre 3 a 4 mil, distribuídos por cinco fábricas de roupas, entre outras ocupações. São trabalhadores com jornadas de trabalho superiores a 10 horas diárias, 7 dias por semana, sem férias e sem qualquer garantia ou benefício trabalhista. Em troca, recebem remunerações que não ultrapassam R$ 75 ao mês. A indústria de confecções responde por 80% das exportações de Bangladesh e por 40% da mão de obra industrial.
 
u      O desabamento foi anunciado com o aparecimento de rachaduras em paredes do Rana Plaza, mas segundo depoimentos de sobreviventes, foram forçados a permanecer nos postos de trabalho. Ano passado, na mesma região, um incêndio matou mais de 100 trabalhadores, ao queimar uma fábrica que produzia para a rede norte americana Walmart. no maior incidente deste tipo já ocorrido em Bangladesh. Em 2005, 61 trabalhadores do setor têxtil morreram e 86 ficaram feridos no desabamento de um edifício de 9 andares, que reunia fábricas deste mesmo ramo, na região do Rana Plaza.
 
u      Estas armadilhas existem em diversos países subdesenvolvidos, sob diferentes denominações, como fábricas dormitório, por que muitas vezes o trabalhador dorme em instalações precárias da própria fábrica, para que possa ser explorado até a última gota de suor.
 
u      Os beneficiários deste trabalho aviltado são grifes e etiquetas de países ricos. No caso das fábricas do Rana Plaza, estão a espanhola Mango, a irlandesa Primark, a canadense Loblaw, distribuidora da indústria de vestuário Joe Fresh, as inglesas Tesco, Sainsbury's e Next, a italiana Benetton e as norte-americanas H&M, Walmart e Gap.
 
u      Grifes que exploram os baixíssimos custos do trabalho, em todos os casos, repetem o mesmo mantra – desconheciam as condições de trabalho e passarão a exigir melhores condições dos seus fornecedores, enquanto abarrotam as suas lojas com peças de vestuário em que, silenciosas, mas eloquentes, constam as etiquetas “made in” Bangladesh, Vietnam, El Salvador, Honduras, China, etc.
 
u      O ciclo desta economia da morte é complementado por consumires locais ou turistas embriagados com os baixos preços exibidos nas etiquetas, e que não chegam a se perguntar como se chega a preços tão inferiores ao normal.
 
Gastos de brasileiros no exterior batem recorde
 
No mesmo dia em desabou o Rana Plaza, em Bangladesh, o Banco Central do Brasil anunciou que, em 2012, os gastos de brasileiros no exterior chegaram a US$ 21,2 bilhões. As despesas de brasileiros, feitas em viagens ao exterior, cresceram 29,2% em relação a 2010 (US$ 16,42 bilhões), o ano recordista até então.
 
Paulo Márcio de Mello
paulomm@paulomm.pro.br
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
 
A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001,
toda quarta-feira, no jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
Através dela, são apresentados casos de empreendedores e empresas, pesquisas, resenhas, editais ou agenda, relativos à responsabilidade social, à sustentabilidade e ao desenvolvimento sustentável.
 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

 Espelho, espelho meu...
 
                                                                                                                                                                   Quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
coluna Empresa-Cidadã
por Paulo Márcio de Mello

► Menos de 4% das empresas brasileiras consideram como negativos os impactos dos seus negócios sobre a sustentabilidade, mesmo considerando os impactos indiretos, aqueles derivados das cadeias de produção e consumo. Menos de 26% delas consideram os impactos como neutros e cerca de 70% consideram os impactos como positivos.

► Entre mais de 30 aspectos da sustentabilidade considerados, nenhuma empresa (0% !) classificou como desfavorável o seu impacto sobre a discriminação e desigualdade racial, apesar da presença de negros nos seus quadros de colaboradores, especialmente entre os ocupantes de cargos de chefia, ser muito inferior à composição verificada na sociedade. O mesmo acontece com a percepção da empresa sobre o impacto por ela provocada na concentração da renda, apesar das espetaculares diferenças de remuneração entre os níveis hierárquicos.

► No caso da energia (“pressão gerada pelos padrões atuais de produção e consumo de produtos e serviços nas fontes de energia para as gerações presente e futuras”), somente 6,7% das empresas classificam o seu impacto como desfavorável.

► As empresas, em 54% dos casos, consideram como alta a importância dos aspectos da sustentabilidade para as atividades empresarias, 26,5% consideram como moderada e 19,6% classificam como de baixa importância.

► Em 53,5% dos casos, as empresas informam ter incorporado, nos seus objetivos ou ações estratégicos, aspectos da sustentabilidade, enquanto 12,6% afirmaram tê-los incorporados apenas aos cenários do planejamento. Pouco mais de um terço das empresas não os consideram.

► Os dez aspectos considerados mais importantes são energia, corrupção e falta de ética, comprometimento com valores e princípios, água, governança corporativa, concorrência desleal, precariedade dos sistemas de infra-estrutura, estresse, cadeia produtiva e equilíbrio dos ecossistemas e serviços ambientais.

► Os dez aspectos da sustentabilidade menos privilegiados pelas empresas no ranking de importância para os negócios são produção de alimentos (o último, com 10% de escolhas), oferta e condições de moradia, pandemias, envelhecimento da população, saúde pública, violência e tráfico, apoio político e políticas públicas, oportunidades de trabalho e renda, desigualdade de gênero, distribuição de renda e marketing.

► Os dados constam da pesquisa “Desafios para a Sustentabilidade e o Planejamento Estratégico das Empresas no Brasil”, realizada pelos professores Cláudio Bruzzi Boechat e Roberta Mokretz Paro, do Núcleo Andrade Gutierrez de Sustentabilidade e Responsabilidade Corporativa, da Fundação Dom Cabral (FDC, www.fdc.org.br/pt/sala_conhecimento).

► O conflito revelado pela pesquisa entre a importância da sustentabilidade e a percepção declarada dos impactos das próprias atividades sobre aspectos característicos da sustentabilidade é exponencialmente maior, quando se considera que foram pesquisadas empresas com compromisso explícito ou com práticas comprovadas de responsabilidade social ou sustentabilidade, como a participação formal em entidades como Pacto Global, Dow Jones Sustainability Index, Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa (ISE) ou a adoção das diretrizes de relato da Global Reporting Initiative (GRI).

► Foram relacionadas 134 empresas com estas características de perfil, das quais 81 aceitaram participar e 30 delas responderam às 155 questões fechadas do questionário. Participaram empresas dos ramos de energia (13%), financeiro (13%), siderúrgico (10%), eletroeletrônicos (7%), agroindustrial (7%), mineração (7%), da construção civil (7%), de outros ramos da indústria (19%) e de outros serviços (17%).

► A pesquisa revela questionamentos fundamentais sobre a (má) qualidade do diálogo entre empresas e suas partes interessadas, sobre a efetividade da gestão de risco referenciada na responsabilidade social e na sustentabilidade, sobre as diferenças da qualidade de gestão empresarial dos valores tangíveis e intangíveis, entre outros.

► A pesquisa contribui também para a compreensão dos motivos da distância entre a grande difusão do discurso corporativo sobre a responsabilidade social e ambiental nos últimos anos e a pequena transformação concreta nas práticas empresariais. Quando será que o espelho em que se miram começará a dizer a verdade?

Paulo Márcio de Mello
paulomm@paulomm.pro.br
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001,
toda quarta-feira, no jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
Através dela, são apresentados conceitos relativos
à responsabilidade social, à sustentabilidade e ao desenvolvimento sustentável,
casos de empreendedores e empresas, pesquisas, resenhas, editais ou agenda.

quarta-feira, 27 de abril de 2011


Sustentabilidade nos olhos dos outros...

                                                                                                                                               Quarta-feira, 27 de abril de 2011
coluna Empresa-Cidadã
Paulo Márcio de Mello

 ► A emissão de dióxido de carbono (CO2), no estado de São Paulo, cresceu 58%, passando de 60,7 milhões de toneladas por ano para 95,7 milhões de toneladas, entre 1998 e 2008. É o que informa o Inventário de Emissões Antrópicas de Gases de Efeito Estufa Diretos e Indiretos do Estado de São Paulo, recentemente divulgado.

► O setor que liderou a emissão foi o de energia, atingindo 78,5 milhões de toneladas, seguido do setor de processos industriais e uso de produtos (4,5 milhões de toneladas) e pela agropecuária (1,9 milhão de toneladas).

► O estado de São Paulo dispõe de uma lei, a Lei Estadual de Mudanças Climáticas (Lei no 13.798/09), aprovada pela Assembléia Legislativa no final de 2009, em vigor desde o ano passado, que determina a redução em 20% da emissão de dióxido de carbono (CO2), até 2020, com base nas cifras de 2005, quando chegou a 88,8 milhões de toneladas.

► Com isso, o estado terá que reduzir a emissão de CO2 em 17,7 milhões de toneladas ano para atingir a meta legal. Esta já é uma meta revisada, pois o que tinha sido estabelecido era o corte de 28,6 milhões de toneladas de CO2, com base nos números de emissão em 2005, divulgados primeiramente.

► A alegação do Programa Estadual de Mudanças Climáticas (Proclima) é de que houve dupla contagem em algumas fontes, além da adoção de nova metodologia para estimar os gases liberados pelas mudanças no uso do solo. Apesar da redução, a meta continua sendo ousada, considerando-se que a emissão de dióxido de carbono por toda a indústria no Estado de São Paulo foi de 12,2 milhões de toneladas, em 2008.

► Conclui-se que o estado de São Paulo responde por cerca de 4,4% do total de emissões de gases causadores do efeito estufa na América Latina, comparando-se os números do Inventário (SP) com os apresentados pelo relatório das Nações Unidas, divulgado na Cúpula da Mudança Climática de dezembro de 2010, a COP-16, de responsabilidade do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Comissão Econômica Para a América Latina e Caribe (Cepal), realizado pelo Instituto GRID Arendal.

► Pelo mesmo relatório, Brasil, Argentina, Venezuela e México são responsáveis por 79% das emissões destes gases na América Latina, causadas principalmente pelas mudanças no uso da terra, energia, silvicultura e agricultura. O Brasil sozinho responde por 52% das emissões.

A média de emissão por habitante da região foi de 5,5 toneladas métricas de CO2, excluídas as verificadas por mudança no uso da terra, em que o Brasil é o maior emissor. Trinidad e Tobago, Uruguai, Venezuela e Argentina, nesta ordem, têm as maiores quantidades emitidas.

► A América Latina e o Caribe têm uma média de emissão de gases causadores do efeito estufa de 1.152 toneladas de CO2, por cada US$ 1 milhão do seu Produto Interno Bruto (PIB). Esta média é superior à dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 481 toneladas de CO2 por cada US$ 1 milhão de PIB. Isto só reforça importância de inversão no modo de produção intensivo em carbono na região e a Lei Estadual de Mudanças Climáticas, de São Paulo, representa um bom instrumento de mudança.

► Contudo, reiterando a prática usual do setor industrial em todo o mundo em relação à política de qualidade ambiental, também em São Paulo, partes significativas deste segmento econômico procuram maximizar o seu lucro, transferindo o ônus das externalidades negativas das suas atividades para a sociedade.

► Desde a entrada em vigor da Lei 13.798/09, a Federação das Indústrias local (FIESP) faz críticas, alegando o temor de que a lei onere o setor ao exigir adaptações no sistema produtivo e que daí empresas fechem, desempreguem, etc, etc. Versos repetidos da economia do carbono, suja e insustentável.

Paulo Márcio de Mello
paulomm@paulomm.pro.br
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)


A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001,
toda quarta-feira, no jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
Através dela, são apresentados conceitos relativos
à responsabilidade social, à sustentabilidade e ao desenvolvimento sustentável,
casos de empreendedores e empresas, pesquisas, resenhas, editais ou agenda.

 

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

"El agua es  nuestra..."

(parte I)

Quarta-feira, 8 de setembro de 2010
coluna Empresa-Cidadã
por Paulo Márcio de Mello
 
► No dia 28 de julho, a Assembléia Geral das Nações Unidas declarou "o direito à água potável, limpa e segura, e ao saneamento como um direito humano que é essencial para o pleno gozo da vida e de todos os direitos humanos."
 
► A resolução recebeu 122 votos a favor, nenhum voto contra e 41 países abstiveram-se. As abstenções foram da Armênia, Austrália, Áustria, Bósnia e Herzegovina, Botswana, Bulgária, Canadá, Croácia, Chipre, Dinamarca, Eslováquia, Estados Unidos, Estônia, Etiópia, Grécia, Guiana, Islândia, Irlanda, Israel, Japão, Kazakhstan, Quênia, Látvia, Lesoto, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Holanda, Nova Zelândia, Polônia, República da Coréia, República da Moldova, República Tcheca, Romênia, Suécia, Trinidad e Tobago, Turquia, Ucrânia, Reino Unido, República Unida da Tanzânia e Zâmbia.
 
► Estima-se que cerca de 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso à água potável (no Brasil, são cerca de 40 milhões) e 2,5 bilhões de pessoas não são atendidas por serviços de saneamento (100 milhões de brasileiros). Em consequência, mais de duas crianças morrem a cada minuto, por doenças de veiculação hídrica, isto é, complicações decorrentes da falta de qualidade da água.
 
► O investimento anual para corrigir, até 2025, a falta de saneamento no mundo, é estimado em US$ 9,5 bilhões. Este investimento resultaria em US$ 66,5 bilhões de economia em dispêndios, hoje realizados na solução dos problemas de saúde decorrentes da falta de saneamento e que, a cada ano, subtraem 5 bilhões de dias de trabalho e 443 milhões de dias de aula.
 
► A resolução da ONU, apesar de discorrer sobre o óbvio, a água como direito fundamental, fortalece a discussão sobre a transformação do direito à água em "commodity" 
► O modelo econômico consumista e que ameaça com a privatização de fontes de água, mananciais, barragens e hidrovias, em escala mundial, é assim questionado. A insegurança hídrica dele resultante é questionada também no comprometimento da potabilidade, em consequência da emissão de efluentes e disposição inadequada de resíduos.
 
► A indisponibilidade de água para tamanha população, no entanto, resulta também do mau uso, representando mais do que mera disponibilização de "recursos financeiros, capacitação e tecnologia, através de ajuda e cooperação internacional, em particular aos países em desenvolvimento," como prevê a resolução, em seu artigo segundo.
 
► Cerca de 70% do consumo total de água é para o uso agropecuário, onde a substituição das formas onerosas de abastecimento, como a dos pivôs centrais, por sistemas mais adequados de irrigação (canaletas e gotejamento, por exemplo) esbarra em interesses políticos. O consumo pessoal, frequentemente acusado de desperdício, responde por apenas 2% do consumo total.
 
► Outras formas menos evidentes de privatização deste direito fundamental, mas tão importantes quanto, estão representadas pela extração de madeira de florestas ou pela conversão de florestas para a agricultura ou para a criação de gado em grande escala. São casos também da mineração e da exploração de petróleo, na medida em que os produtos químicos usados ou liberados nestas atividades, interferem na disponibilidade de água potável.
 
► Outras formas de apropriação privada derivam de reflorestamentos econômicos, que consomem grandes quantidades de água diárias, ou do resfriamento e congelamento requerido na comercialização de carnes.
 
► O modo de produção predominante distancia-se do sistema ambiental, exigindo de governos, instituições, comunidades, cientistas e agentes econômicos a gestão democrática das externalidades negativas, inerentes a uma sociedade baseada no consumo exagerado e conseqüente pressão sobre os recursos naturais.

► Nenhuma atividade econômica que venha a comprometer os recursos hídricos pode mais ser aceita e já há registros de lutas exemplares contra empresas que dilapidam este patrimônio e direito fundamental. É o caso da Guerra pela Água, iniciada em 1999.

paulo márcio de mello
professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro 
 
(continua)
"El agua es nuestra..."
(parte II)
 
Quarta-feira, 15 de setembro de 2010
coluna Empresa-Cidadã
por Paulo Márcio de Mello
 
► A água, em julho passado, declarada direito humano essencial pela Assembléia Geral da ONU, vem sendo alvo de corporações que procuram dela se apropriar. Há casos de resistência cidadã, porém. Entre lutas importantes para religar a economia ao bem comum, uma das mais significativas foi a Guerra pela Água, em Cochabamba (Bolívia).

► Em 1996, o Banco Mundial prometeu àquela municipalidade boliviana um empréstimo de US$ 14 milhões, para expandir o serviço de água. "Tão bonzinho", o Banco Mundial condicionou o empréstimo à privatização do fornecimento água da cidade.
 
► Em setembro de 1999, em um processo silencioso, a água de Cochabamba foi arrendada, até 2039, para uma nova empresa chamada Aguas del Tunari. Logo se identificou que se tratava de testa de ferro da gigantesca corporação Bechtel, da Califórnia (EUA). O contrato assegurava o lucro assombroso de 16%, a cada um dos 40 anos contratados.
 
► A resistência popular foi se organizando, sob a denominação de La Coordinadora para a Defesa da Água e da Vida. A liderança era composta por representantes do sindicato dos trabalhadores de uma fábrica local, irrigadores, fazendeiros, grupos ambientalistas, economistas, alguns membros do Congresso e de organizações populares.

► Apesar de manifestações de protesto, em janeiro de 2000, a Bechtel aplicou um tarifaço de 200% sobre o serviço de água. A população reagiu com uma greve geral de três dias. Uma faixa foi fixada na sede provisória de La Coordinadora, anunciando "El Agua es Nuestra, Carajo!"
 
► A população então deixou de recolher a tarifa de água e se manifestou publicamente. O governo reagiu com o uso violento de tropas, trazidas de outras regiões, dando início a uma ebulição que parou novamente Cochabamba, resultando na renúncia do governador, prisões, lei marcial, censura, pressão internacional sobre o CEO da Bechtel, Riley Bechtel e no assassinato do jovem Victor Hugo Daza.
 
► Até que o governo central capitulou, anunciando o cancelamento do contrato e a fuga do país dos executivos da Bechtel. La Coordinadora e o governo indicaram os dirigentes da nova companhia de água de Cochabamba, SEMAPA.
 
► Parecia um final feliz, menos para a Bechtel. Em novembro de 2001, a multinacional da água reiniciou a guerra, ao apresentar uma demanda de $25 milhões de dólares contra a Bolívia, através do Banco Mundial, a mesma instituição que forçou a privatização.
 
► Uma vez mais, a resistência organizada inibiu a investida da Bechtel. Em agosto de 2002, lideranças populares de 41 países apresentaram a Petição Internacional de Cidadãos ao Banco Mundial, requerendo transparência nas decisões.
 
► Pragmático, o Banco Mundial não prosseguiu com o processo, possivelmente percebendo que o mesmo mecanismo acionado pela Bechtel contra a Bolívia poderia ser mobilizado por outras empresas, buscando indenizações por leis ambientais, sanitárias ou trabalhistas, a pretexto de derrubar barreiras ao livre comércio.
 
► O Brasil, país rico em água, com aquíferos significativos, como O Guarani (no Centro Sul) e Alter do Chão (na Amazônia), também apresenta registros de luta por este direito fundamental, caso da Campanha da Fraternidade de 2004. Desde então, o movimento social tem procurado compensar as participações oficiais brasileiras nos Fóruns Mundiais da Água, subordinadas aos interesses que tratam a água como mais uma "commodity".
 
paulo márcio de mello
professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro 
 
A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001,
toda quarta-feira, no jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
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à responsabilidade social, à sustentabilidade e ao desenvolvimento sustentável,
casos de empreendedores e empresas, pesquisas, resenhas, editais ou agenda.
 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Um novo começo.

                                                                                                                                                                        (parte I)
 
 Quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
coluna Empresa-Cidadã
Paulo Márcio de Mello

 Um novo começo representa o maior desafio jamais enfrentado pela Humanidade e a conciliação com o Planeta é o horizonte deste caminho. Novos estatutos éticos, capazes de religar o Homem com a sua casa precisam ser construídos. Os valores ainda hoje predominantes posicionaram o Homem no topo de uma escala que deixou resíduos de arrogância discriminatória em relação ao próprio Homem e às outras expressões da Vida.

Um importante estatuto ético surgiu na histórica Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, a Declaração de Estocolmo, de junho de 1972. A Declaração de Estocolmo sobre o Ambiente Humano ainda era uma consideração arrogante, relativa a uma centralidade do Homem e subordinação da Natureza, na condução dos esforços do reposicionamento necessário. Tinha, no entanto, o mérito de reconhecer, entre outros aspectos, o impacto da escala sem precedentes na transformação do Ambiente, bem como a essencialidade do Ambiente para o gozo de direitos humanos fundamentais, a começar pelo direito à vida.

A Declaração peca por estabelecer algumas dissociações indesejáveis, como nos casos do desejo dos povos pela melhoria e proteção ambientais e na exclusividade dos governos na condução desta tarefa, ou na consideração de que haveria problemas ambientais de ricos e de pobres, ou também na concepção de que existem interesses excludentes entre gerações atual e futuras, ou ainda na crença mítica da capacidade do desenvolvimento econômico de ensejar melhor qualidade de vida.

São percepções ainda hoje entranhadas profundamente em nossos valores, que decorrem mais de interesses políticos de busca de hegemonia do que de evidências históricas. Vinte e seis princípios dão forma à Declaração de Estocolmo, constituindo-se em um estatuto ético avançado para as circunstâncias de então.

O primeiro princípio refere-se ao Homem como titular do direito fundamental “à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequadas, em um meio ambiente de qualidade tal que lhe permita levar uma vida digna, gozar de bem-estar”, sendo portador “solene de obrigação de proteger e melhorar o meio ambiente, para as gerações presentes e futuras.”

Ainda no Princípio 1, mencionava-se que “as políticas que promovem ou perpetuam o ‘apartheid’, a segregação racial, a discriminação, a opressão colonial e outras formas de opressão e de dominação estrangeira permanecem condenadas e devem ser eliminadas.” Curiosamente, mais do que hoje, o mundo era povoado de ditaduras, inclusive o Brasil, que assinaram contra a dominação “estrangeira”, mas calaram diante da dominação, como se também neste caso pudesse haver uma dicotomia.

A concepção de que o Homem paira fora deste sistema verifica-se nos Princípios 3 e 4, especialmente neste, atribuindo ao Homem “a responsabilidade especial de preservar e administrar judiciosamente o patrimônio representado pela flora e fauna silvestres, bem assim o seu habitat” reconhecendo que se já encontravam “em grave perigo por uma combinação de fatores adversos.”

O mito da concepção do desenvolvimento está expresso no Princípio 8, que menciona que o “desenvolvimento econômico e social é indispensável para assegurar ao homem um ambiente de vida e trabalho favorável e criar, na Terra, as condições necessárias à melhoria da qualidade de vida.”

Outra concepção questionável está expressa no Princípio 16, que diz que “As regiões em que exista o risco de que a taxa de crescimento demográfico ou as concentrações excessivas de população, prejudiquem o meio ambiente ou o desenvolvimento, ou em que a baixa densidade de população possa impedir o melhoramento do meio ambiente humano e obstar o desenvolvimento, deveriam ser aplicadas políticas demográficas que representassem os direitos humanos fundamentais e contassem com a aprovação dos governos interessados.”

O princípio inverte significados, omitindo o impacto gravíssimo dos padrões de produção, distribuição, financiamento e consumo a que alguns países chegaram e que a crise econômica presente é exemplo, e ressaltando o aspecto “apenas” grave, e politicamente menos indigesto para as economias hegemônicas, dos aspectos demográficos.

Outros estatutos éticos foram concebidos, contribuindo para recolocar pouco a pouco o Homem como parte dos ecossistemas, a eles subordinado. Em colunas próximas, abordaremos alguns deles. Antes, no entanto, é Natal. Então, um Bom Natal!

(continua)

Um novo começo.

(parte II)

Quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
coluna Empresa-Cidadã
Paulo Márcio de Mello

 Dois estatutos éticos importantes, que procuram religar o Homem com o planeta, sucederam a Declaração de Estocolmo, resultado da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, de junho de 1972.

Um deles, mais conhecido como relatório Brundtland, foi apresentado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (ONU - UNCED), em 1987. A comissão, presidida pela Dra Gro Harlem Brundtland e por Mansour Khalid, apresentou o texto, oficialmente chamado de “Our Common Future”.

Nele, foi consagrado o conceito de desenvolvimento sustentável, o “desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de as futuras gerações satisfazerem suas próprias necessidades".

O conceito, muito difundido nesta versão adocicada, foi apurado a partir da contabilização das necessidades essenciais, prioritariamente as das populações mais pobres, uma das origens às críticas a ele formuladas.

Critica-se o relatório Brundtland, por complacência com o modo de produção vigente e timidez ao não estipular limites máximos para a exploração dos recursos naturais do planeta, ao contrário de outros importantes relatórios que o precederam, como o conhecido relatóri o “Os Limites do Crescimento”, publicado em 1972, realizado por uma equipa do Massachusetts Institute of Technology (MIT), coordenada por Donella e Dennis Meadows, a pedido do Clube de Roma (1968).

Possivelmente, a maior vulnerabilidade do conceito de desenvolvimento sustentável é a da sua definição ainda encarcerada na sequência da construção do conceito colonizador do desenvolvimento econômico. Apesar de propor uma nova era de crescimento, não critica o significado perverso das etapas inevitáveis para a construção do processo de crescimento, incompatíveis com o propósito do desenvolvimento sustentável.

Além disso, a divulgação do conceito de desenvolvimento sustentável, quase sempre restrita à parte do texto edulcorada como satisfação das necessidades do presente, sem prejuízos para a satisfação das necessidades das próximas gerações, omite alguns princípios mais críticos do relatório.

Entre muitos aspectos de qualidade omitidos na difusão do conceito de desenvolvimento sustentável, está o da referência implícita à eficácia inerente à tomada coletiva de decisões, ou à necessidade do sentido distributivo do crescimento, ou ainda o entendimento deste como um fenômeno predominantemente político.

O relatório tem o saldo meritório de estabelecer requisitos para a harmonia com a Natureza, contribuindo para a visão em que o Homem é elemento indissociável de um sistema, cujo equilíbrio e harmonia precisam ser perseguidos.

A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro (RJ), em junho de 1992, através da Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, reiterou a Declaração de Estocolmo, de 1972. Ultrapassou-a, ao ressaltar a integridade do sistema global de meio ambiente e desenvolvimento e reconhecer a natureza integral e interdependente da Terra.

Entre 27 princípios, o primeiro refere-se ao direito humano a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza. O conceito de desenvolvimento sustentável permeia a Declaração do Rio de Janeiro que, até o décimo princípio, reproduz os aspectos do relatório Brundtland. Além disso, atribui aos Estados predominantemente e aos indivíduos, complementarmente, o zelo pela proteção ambiental.

Uma das mais importantes contribuições da Declaração do Rio de Janeiro é a de consagrar as responsabilidades pelas economias externas, também conhecidas como externalidades, aspecto central nas políticas públicas ambientais e de responsabilidade social.

O Princípio 16 afirma assim que “as autoridades nacionais devem procurar promover a internacionalização dos custos ambientais e o uso de instrumentos econômicos, tendo em vista a abordagem segundo a qual o poluidor deve, em princípio, arcar com o custo da poluição, com a devida atenção ao interesse público e sem provocar distorções no comércio e nos investimentos internacionais.

A Declaração do Rio de Janeiro, de 1992, contribuiu para o interesse pelo futuro do planeta, ressaltando a relação entre desenvolvimento sócio-econômico e modificações no meio ambiente.

Feliz 2009!

(continua)

Um novo começo.

(parte III)
 

Quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
coluna Empresa-Cidadã
Paulo Márcio de Mello

A Carta da Terra é o quarto documento que mencionamos, após a Declaração de Estocolmo sobre o Ambiente Humano (1972), o relatório Nosso Futuro Comum (ou relatório Brundtland, 1987) e a Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (1992), como estatutos éticos para iluminar o caminho de religar o Homem com a Natureza.

Sua edição foi inspirada pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas (ou Comissão Brundtland, 1983-1987), ao recomendar uma declaração universal sobre proteção ambiental e desenvolvimento sustentável, na forma de uma "nova carta".

A Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento do Rio de Janeiro (1992) sugeriu a meta de criar uma Carta da Terra. Entretanto, os Estados representados não chegaram a este acordo, adotando então a Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

Em 1994, Maurice Strong (presidente do Conselho da Terra) e Mikhail Gorbachev (presidente da Cruz Verde Internacional) lançaram uma iniciativa da sociedade civil para redigir uma Carta da Terra. Em 1997, ao final do Fórum Rio+5, no Rio de Janeiro, um texto de referência foi liberado, até que, em 2000, a Carta da Terra foi lançada, em Haia.

A Carta da Terra, no Preâmbulo, menciona que “no meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum.” Consagra-se o princípio de que, apesar de variarem as formas, o destino dos diversos é o mesmo.

O título seguinte, “Terra, Nosso Lar”, subordina a Humanidade como “parte de um vasto universo em evolução”, importante contribuição para ultrapassar a concepção de que existiria uma supremacia do Homem sobre outras formas de Vida.

Segue o título “A Situação Global”, crítico, apesar de inconsistências. É o caso do reconhecimento de que os padrões dominantes de produção e consumo são causas da devastação ambiental e da redução dos recursos. Inconsistente ao concluir que o “crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social.” Alivia assim o peso dos padrões de produção e consumo, sobrecarregando o aspecto demográfico, importante, mas subalterno.

O título “A Situação Global” oferece inconsistências também ao apontar que os “benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos eqüitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando”, mas omite que o conceito de desenvolvimento carrega inevitavelmente estas conseqüências. Segue o título “Desafios Para o Futuro”, compreensivelmente otimista ao apontar que, juntos, “podemos forjar soluções includentes.”

O último título introdutório, “Responsabilidade Universal”, refere-se ao “espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida”, fortalecido ao reverenciar com humildade o lugar que ocupa o Ser Humano na Natureza.

Outra significativa contribuição da Carta da Terra, expressa no sétimo princípio, é a recomendação de transferência total dos custos ambientais e sociais para os preços de venda dos bens e serviços. Trata-se de um aspecto de equidade econômica, onerando os beneficiários finais dos bens e serviços por economias externas negativas dos processos produtivos, fator geralmente negligenciado e que acentua as desigualdades.

O último título, “O Caminho Adiante”, reitera as responsabilidades de liderança compartilhada por indivíduos, famílias, comunidades, artes, ciências, religiões, instituições educativas, meios de comunicação, empresas, organizações não-governamentais e governos na busca de “caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo.

Esta é uma trilha em que vão evoluindo as referências éticas, a partir de uma percepção antropocêntrica, do Homem dissociado da Natureza, herança da cultura derivada das religiões abraâmicas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo).

Quando Abraão foi poupado pelo Criador de oferecer o próprio filho, o favorito, em sacrifício, substituindo-o por um carneiro, instituiu o significado de dissociar o Homem (o filho) da Natureza (o carneiro), com predominância na escala de valores, restando à Natureza servir o Homem, até a morte.

Os avanços em relação ao incômodo desta percepção dissociada chegarão quando outra percepção, sistêmica, em que o Homem figura como elemento da Natureza, não mais acima dela, estiver estabelecida.

paulo márcio de mello
paulomm@paulomm.pro.br
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001,
toda quarta-feira, no jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
Através dela, são apresentados conceitos relativos à responsabilidade social,
casos de empreendedores e empresas, pesquisas, resenhas ou agenda.