quarta-feira, 19 de junho de 2013

"Primavera" tropical
 
 
                                                                                                                                                        Quarta-feira, 19 de junho de 2013
coluna EMPRESA-CIDADÃ
Paulo Márcio de Mello
 
      A população brasileira amanheceu de alma lavada, após as manifestações da segunda-feira, 17 de junho. Em diferentes regiões do país, multidões tomaram as ruas das cidades para dizer da necessidade de mudanças. O movimento, que vem sendo gestado desde 2012, pela iniciativa dos mais jovens de protestar contra as tarifas dos transportes coletivos, desproporcionais em relação à qualidade, ao rendimento dos assalariados e aos padrões internacionais.
 
      O movimento Passe Livre foi revigorado em 2013, com os aumentos recentes das tarifas dos transportes, tornando-se uma expressão comum nas manifestações nas diferentes cidades. O contorcionismo verbal de prefeitos, governadores e outras autoridades procurou justificar as autorizações concedidas para os aumentos com o argumento comum de que foram aumentos inferiores à inflação. O argumento, no entanto, não resiste à comparação com a evolução dos índices de preços na última década, muito mais modestos do que a variação dos preços das passagens.
 
      Também não resiste à desconfiança da população quanto às relações contaminadas entre a representação política costumeira que forma os governos e as empresas privadas beneficiadas com as concessões de transporte. Ninguém duvida de que estas empresas figuram entre os principais financiadores das campanhas eleitorais. Talvez por isso, escondam impunemente as planilhas que permitiriam determinar os preços justos das tarifas.
 
      A explosão que sacudiu o país na segunda-feira, no entanto, além das reivindicações no Passe livre, foi nutrida por uma pauta muito mais ampla. Como se lia em um cartaz, carregado por uma manifestante, “não estou lutando por 20 centavos, mas pelo futuro do Brasil”. A indignação ultrapassa a grave situação dos transportes, onde a maioria das pessoas deixa uma parte significativa do tempo das suas vidas.
 
      Outras bandeiras foram levantadas, como a dos gastos públicos excessivos com as obras das novas arenas da Copa das confederações e da Copa do mundo da FIFA, que contrastam com a penúria na saúde e no ensino públicos. Fica evidente que dinheiro há. Pelo menos, quando a representação política tradicional tem interesse.
 
      Mundo afora, outros movimentos parecidos também englobam pautas diversificadas e este parece ser um dos motivos de sucesso, por que confere uma capacidade de adaptação, compatível com a velocidade das transformações e com o imediatismo da comunicação. Brincando com a linguagem contemporânea da gestão, seriam como “movimentos de escopo”, mais flexíveis do que os de objetivo definido.
 
      Contribui também para o sucesso destes movimentos a descentralização e fluidez das lideranças, sem um nome concentrador. O recurso às redes sociais, como elemento aglutinador, complementa um conjunto de características novas da locução política e privilegia a participação do segmento mais jovem da população.
 
      Um dos mais notórios destes movimentos é o Occupy Wall Street, inspirado em movimentos coletivos europeus, como o Indignados, inicialmente M15M, na Espanha, nas rebeliões de massa que nutriram a Primavera Árabe, que derrubou antigas ditaduras na Tunísia, no Egito e em outros países.
 
       O movimento OWS é plural, sem uma síntese de proposições. Na origem da mobilização, há dois anos, estão os grupos Adbusters, US Day of Rage, Anonymous, com as suas máscaras características, e o New Yorkers Against Budget Cuts (Nova-iorquinos contra os cortes no orçamento).
 
      Primavera é como foram chamados movimentos semelhantes em diferentes partes e momentos do mundo, notoriamente a Primavera turca, em pleno andamento, e a Primavera árabe, que resultou na substituição de uma série de regimes de poder. Voltando no tempo, encontramos outras primaveras libertárias, como a de Praga (1968) e a Primavera dos povos (1848), sucessão de levantes populares, resultado de severa crise capitalista de então. Desde 17 de junho, a “Primavera tropical” junta-se às outras.
 
      17 de junho será lembrado como o dia que não acabou. Por ele, o Brasil entrou no século 21 e poderá resgatar direitos civis, sequestrados da maior parte dos brasileiros.
 
      Ah, em tempo. Um dia depois, quais os governantes que se manifestaram (e os que se fizeram de mortos) sobre os acontecimentos e sobre a reivindicação original do movimento, as tarifas de transporte?
 
Paulo Márcio de Mello
paulomm@paulomm.pro.br
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001,
toda quarta-feira, no jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
Através dela, são apresentados conceitos relativos à responsabilidade social,
casos de empreendedores e empresas, pesquisas, resenhas ou agenda sobre o assunto.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A refloresta
                                                                        

Uma lição de otimismo oferecida por seis escravos,
a (re) Floresta da Tijuca.
 

blog do professor paulo márcio

economia&arte

Quarta-feira, 12 de junho de 2013
coluna Empresa-Cidadã
por Paulo Márcio de Mello
 
Eleutério, Constantino, Mateus, Leopoldo, Maria e o menino Manuel plantaram mais de 100 mil árvores, na Floresta da Tijuca, entre 1861 e 1874. Também a estes escravos, o Rio de Janeiro deve o título atribuído pela UNESCO, há um ano, de primeira cidade Patrimônio Mundial da Humanidade, como Paisagem Cultural Urbana. 
 
O pleito de se tornar cidade Patrimônio Mundial da Humanidade foi apresentado à UNESCO em 2002. Após sucessivas correções, o projeto coordenado pela arquiteta Cristina Lodi, concertou diversas instituições, até a indicação da cidade na categoria de paisagem cultural, pelo cenário urbano constituído por elementos naturais, modificados pela intervenção humana.
 
São exemplos desta forma de intervenção a entrada da Baía de Guanabara, com a presença de fortificações militares, dos morros do Pão de Açúcar e Cara de Cão, marcos da fundação da cidade em 1º de março de 1565, da enseada de Botafogo e da orla de Copacabana.
 
► Citando a inspiração que o Rio proporciona a músicos, paisagistas e urbanistas, o comitê do Patrimônio Mundial da Humanidade da UNESCO contemplou também o Jardim Botânico, criado em 1808 por D. João VI, o morro do Corcovado, com a estátua do Cristo Redentor, uma das sete maravilhas do mundo moderno, inaugurada em 1931, e o entorno montanhoso da Baía de Guanabara, que abriga paisagens urbanas, além da Floresta da Tijuca.
 
A Floresta da Tijuca, na verdade “re-floresta”, é um caso de sustentabilidade realizado entre 1861 e 1872. Desde o século XVII, a região vinha sendo devastada pela extração de madeira para lenha e carvão, fonte de energia dos engenhos, bem como para construções e para exportação dirigida à Europa. No século XIX a devastação foi radicalizada, com a monocultura do café, acarretando severos problemas sociais e ambientais, como o da escassez de água, pela destruição das matas protetoras das nascentes.
 
Quatro grandes secas assolaram o Rio na primeira metade do século XIX. Com uma população de cerca de 400 mil pessoas e uma demanda de 60 milhões de litros de água por dia, a oferta da cidade caiu, não passando de oito milhões.
 
Em 1861, o imperador Pedro II ordenou ao major da polícia militar Manuel Gomes Archer, com os escravos Eleutério, Constantino, Mateus, Leopoldo, Maria e o menino Manuel, plantar mais de 100 mil mudas de árvores nativas, no que hoje é o Parque Nacional da Tijuca, uma área com pouco mais de 39 km2, equivalentes a 3,5% da área da cidade do Rio de Janeiro. O trabalho foi concluído com o comando do Barão Gastão Luiz Henrique de Robert d'Escragnolle.
 
► O planejamento do reflorestamento começou a ser posto em prática em 1854, com a desapropriação de terrenos, sítios e outras propriedades localizadas nas áreas de nascentes. Desde 1844, o imperador dava ordens para ações policiais de repressão aos desmatamentos, mas os poderosos cafeicultores resistiam e os coletores de impostos consentiam.
 
Este é um exemplo para graves desafios ambientais contemporâneos. Declarada Patrimônio Natural Mundial, como Reserva da Biosfera, em 1991, pela UNESCO, a Floresta da Tijuca é frequentemente chamada de maior floresta urbana do mundo. Na verdade, a re-Floresta da Tijuca é menor do que outra floresta existente na própria cidade do Rio de Janeiro, a do Maciço da Pedra Branca.
 
Com cerca de 125 km2, portanto quase 4 vezes maior do que a Floresta da Tijuca, a floresta foi transformada em área de proteção ambiental, em 1988, com a criação do Parque Estadual da Pedra Branca. No entanto, continua sofrer com ações de ocupação irregular, extração ilegal de madeira, perda de biodiversidade e redução na disponibilidade de água. Eleutério, Constantino, Mateus, Leopoldo, Maria e o menino Manuel, hoje apenas estátuas na entrada do Centro de visitantes do Parque Nacional da Tijuca, fazem falta.
 
► Às vezes, me pergunto o que seria do governante que hoje anunciasse a instalação de uma imagem religiosa no alto de uma montanha, como a do Cristo Redentor do Corcovado, ou de um teleférico ligando dois morros, para fins exclusivamente contemplativos. Aí estão os “bondinhos” do Pão de Açúcar, porém.
 
Ou como seria uma licitação para reflorestar 39km2 de uma área como a da Floresta da Tijuca. De que brechas na legislação se aproveitariam as empreiteiras de sempre, para aditar contratos milionários de licitações de cartas marcadas? E pensar que a refloresta foi restabelecida por seis escravos, comandados por um major...
 
paulo márcio de mello
paulomm@paulomm.pro.br
professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Pão e circo
  
                                                                                                                                                                Quarta-feira, 05 de junho de 2013
coluna EMPRESA-CIDADÃ
Paulo Márcio de Mello*
 
Neymar Jr, 21 anos, foi recepcionado no Camp Nou, estádio do seu novo clube, o Barcelona, por cerca de 56 mil torcedores do time catalão, em plena segunda-feira. O seu passe foi adquirido por 57 milhões de euros (equivalentes a R$ 157,8 milhões), tendo sido fixada uma multa, na hipótese de rescisão de contrato, de 190 milhões de euros, ou R$ 526 milhões.
 
Há detalhes obscuros na transação, como o adiantamento de 10 milhões de euros (R$ 27,7 milhões), há cerca de dois anos, para comprometer quem os recebeu com a negociação. O que não foi esclarecido é a identificação dos beneficiários. Outro aspecto não informado é o da partilha do valor do passe, entre o Santos, a DIS, a Teisa e o próprio Neymar Jr.
 
Menos de uma semana antes, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) divulgava as previsões para a Espanha em 2013 e 2014. A recessão na Espanha deverá continuar no ano em curso, com o elevado endividamento do setor privado, que dificultará a procura interna, segundo a análise da OCDE.
 
Pelo estudo, a economia espanhola deverá retroceder 1,7% em 2013, recuo maior do que o previsto em novembro de 2012 pela própria OCDE. Para 2014, o estudo prevê uma tênue recuperação, devida, essencialmente, à melhoria nas exportações, crescendo 0,4%, expectativa inferior à divulgada no relatório de novembro de 2012.
 
Em relação ao desemprego, os dados são dramáticos, podendo atingir 27,3%, em 2013, e 28%, em 2014. Na Espanha, a taxa de desemprego é a maior do continente europeu e, entre os jovens, assume tons ainda mais fortes.
 
Dos espanhóis com até 25 anos, 50,5% estavam desempregados, em fevereiro, segundo o Eurostat, bureau de estatísticas da União Européia. Na zona do euro, a quantidade de pessoas desempregadas subiu para 17,134 milhões, o número mais alto desde que os registros começaram a ser produzidos, em janeiro de 1995.
 
Panem et circenses, a política criada na Roma antiga, que privilegiava a oferta de comida e diversão ao povo, para conter a insatisfação, continua atual?
 
Conflito de interesses
 
No premiadíssimo documentário “Trabalho Interno” (“Inside Job”, 2010), um dos aspectos que o diretor Charles Ferguson aborda didaticamente é o das relações promíscuas entre academia, empresas e governos, com o financiamento de pesquisas que contribuem para alargar os mercados de muitas empresas que remuneram estudos apresentados como cientificamente neutros ou isentos. A academia muitas vezes silencia sobre o conflito de interesses entre financiamento e os resultados dos estudos, agravando a questão. Vale a pena assistir.
 
Nesta semana, o periódico especializado Proceedings of the National Academy of Sciences (www.pnas.org) divulgou os resultados da pesquisa “Marital satisfaction and break-ups differ across on-line and off-line meeting venues”, conduzida por John T. Cacioppo, Stephanie Cacioppo, Gian C. Gonzaga, Elizabeth L. Ozburn e Vanderweele J. Tyler. A pesquisa foi baseada em entrevistas junto a uma amostra representativa da população norte americana, composta por 19.131 pessoas, que se casaram entre 2005 e 2012.
 
Na faixa etária compreendida entre 30 e 49 anos, 54% dos entrevistados revelaram ter encontrado o cônjuge através da internet, 22% no trabalho, 19% através de amigos, 9% em bares ou casas noturnas e 4% na igreja. Considerando-se as outras faixas etárias, mais de um terço das uniões começaram na rede.
 
Observando os casais que se separaram durante os sete anos de realização do estudo, os pesquisadores concluíram que 5,96% dos casais que se casaram após se conhecerem pela internet tinham terminado a relação. Entre os que se conheceram fora da rede, o percentual é significativamente maior (7,67% dos casais).
 
Um questionamento aberto pela pesquisa refere-se ao fato de que ela foi encomendada pelo site de relacionamentos eHarmony.com, responsável por quase um quarto de todos os casamentos realizados nos EUA, pela rica indústria do namoro pela internet. John T. Cacioppo admitiu ser profissional remunerado pelo site, mas acrescentou ter observado procedimentos propostos pela Associação Médica Americana. Prevalece a pesquisa ou o conflito de interesses?
 
Bom pra cachorro
 
A rede Starbucks acaba de abrir uma das suas lojas, localizada no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo (SP), com um espaço pet, destinado a animais de estimação dos clientes. A área possui um bebedouro e serve para abrigar cães, enquanto os seus responsáveis tomam café.
 
Paulo Márcio de Mello
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
 
 
A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001,
toda quarta-feira, no jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).   Através dela, são apresentados conceitos relativosà responsabilidade social, à sustentabilidade e ao desenvolvimento sustentável,casos de empreendedores e empresas, pesquisas, resenhas, editais ou agenda.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A galinha e o mosquito.
 
                                                                                                                                                           Quarta-feira, 29 de maio de 2013
coluna Empresa-Cidadã
Paulo Márcio de Mello
 
 Na última semana, o Brasil assistiu as imagens do incêndio monumental, no depósito de combustível em Jardim Primavera, no município de Duque de Caxias (RJ), iniciado em 23 de maio. A empresa (ir)responsável pelo incidente, a Petrogold, está instalada indevidamente em área residencial, tendo chegado à região após a presença dos moradores.
 
Em consequência do incêndio, houve a morte de um cidadão, sete feridos, danos materiais e morais, com a destruição de algumas casas e a interdição de mais de cem outras, a interrupção do fornecimento de energia elétrica, a morte de animais de estimação, a suspensão de aulas, a mobilização de recursos públicos, como os que foram comprometidos com a mobilização de seis quartéis do corpo de bombeiros do estado, dos serviços de saúde, de caminhões com material contra incêndio da Petrobras (refinaria REDUC), além de danos ambientais com a emissão de toneladas de carbono na atmosfera.
 
Como acontece em episódios desta espécie, um conjunto de causas responde pela tragédia anunciada. Nestas causas, estão emaranhados órgãos públicos, como a prefeitura municipal, tanto a gestão passada, responsável pelo licenciamento precário desta bomba incendiária em área residencial, quanto a gestão atual que, após cinco meses no poder, mostra-se surpresa com os acontecimentos e promete agora, depois da porta arrombada, uma ação profilática, com a remoção do bairro residencial de outras empresas bomba, como a que explodiu. O limite do prazo previsto é o final do ano! Até lá...
 
Em nota, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informou que a Petrogold atendia às exigências das Portarias ANP nºs 29 e 202, de 1999, incluindo o alvará concedido pela Prefeitura municipal de Duque de Caxias e o certificado de vistoria do Corpo de bombeiros do estado, “dentro dos prazos de validade".
 
Apesar da então diretora-geral da ANP, Magda Chambriard (substituída em 28 de maio), ter anunciado um reforço na fiscalização, com a admissão de 152 fiscais aprovados em concurso público, em fase de treinamento, não parece haver insuficiência de força de fiscalização na ANP já que, segundo a nota, a Petrogold já teria sido fiscalizada quatro vezes em 2013 (quase uma fiscalização por mês). E nenhuma notificação de irregularidade foi feita.
 
Em consequência de operação da Polícia Federal e da Secretaria de estado do ambiente, um inquérito foi instaurado, em julho de 2012, para apurar possíveis crimes ambientais cometidos pela Petrogold, com base nos artigos 54, 56 e 60, da Lei 9.605/98, referentes à poluição, armazenamento e comercialização indevidas de substâncias tóxicas e funcionamento sem licença ou autorização dos órgãos ambientais competentes. No dia 6 de agosto daquele ano, o inquérito foi remetido ao Ministério Público.
 
O Ministério Público do Rio de Janeiro responsabiliza o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), ao informar, em nota divulgada no dia 24 de maio, que o “inquérito civil está em trâmite até a presente data, sem que a empresa apresentasse a licença de operação a ser concedida pelo Inea. O Inea, por sua vez, órgão ambiental competente para fiscalizar a empresa e com poder de polícia para interditar o estabelecimento, até a data do incêndio, não havia adotado nenhuma providência mais contundente, limitando-se a enviar cópias a esta Promotoria de Justiça do procedimento de concessão da licença, onde se verificam a estipulação de diversas exigências à empresa para que a licença fosse concedida”.
 
Está previsto que o Inea deverá custar para o cidadão do estado do Rio de Janeiro R$ 576.115.142,00, conforme a Lei nº 6.380, de 09 de janeiro de 2013, que aprova o Orçamento anual do estado para o exercício de 2013 (disponível em rj.gov.br/documentos; pág. 592). É caro.
 
Em sua página (petrogold.com.br), a Petrogold informa que, nos seus negócios, “há o compromisso de respeito às pessoas e ao meio ambiente, e através de um desenvolvimento sustentável, busca a divulgação e a valorização da cultura brasileira, por meio de ações de alcance social e ambiental”. Com um premonitório erro de omissão do pronome, diz também que a “Petrogold preocupa com toda a sociedade brasileira”.
 
Enquanto isso, o mosquito aedes aegypti já tinha causado mais de 714 mil vítimas de dengue no país e uma galinha, vinda não se sabe de onde, entrou sem pagar na estação Flamengo (Rio de Janeiro, RJ) do metro, circulou pelos trilhos e interrompeu a circulação dos trens. Voou quando quis para fora da estação, sem ser capturada, apesar das tentativas e da tarifa do metro custar R$ 3,50, para utilização de 35 estações, 2 linhas e malha total de 40,9 km. É caro. Para a utilização de 468 estações, 24 linhas e malha total de 1056 km, o metro de Nova York cobra uma tarifa de US$ 2,25.
 
Paulo Márcio de Mello
paulomm@paulomm.pro.br
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001,
toda quarta-feira, no jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
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casos de empreendedores e empresas, pesquisas, resenhas, editais ou agenda.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Você sabe o que é sujeira? 
 
 
                                                                                                                                                           Quarta-feira, 22 de maio de 2013
coluna EMPRESA-CIDADÃ

Paulo Márcio de Mello*
 
u        Você sabe o que é sujeira e como o sabão ou detergente agem para removê-la? Com esta pergunta, Fernanda Cristina Romero e um grupo de estudantes do curso de Licenciatura plena em ciências da Unifesp iniciam as palestras que realizam em escolas públicas de Diadema (SP), com o propósito de fomentar o senso crítico sobre a exploração dos recursos naturais e sobre o desenvolvimento de modos alternativos de produção e consumo, com respeito ao ambiente. Fernanda é “Embaixadora Ambiental da Bayer”, em consequência da premiação do projeto Consumo responsável de detergentes, no Programa Bayer Jovens Embaixadores Ambientais, edição 2012.
 
u        Outras iniciativas foram premiadas, como a de Claudio Felipe Boer Cavalcante, outro embaixador ambiental, denominada Gestão do resíduo de gesso. O projeto decorre da constatação de que resíduos gerados pela construção civil representam 60% do lixo urbano e que 5% correspondem aos restos de gesso, cujo principal componente é o sulfato de cálcio. Um dos vencedores do certame de 2012, o projeto tem por objetivo contribuir para o fomento de alternativas para o reuso e reciclagem de resíduos de gesso.
 
u        Além destes, foram premiados Roger Friedrich Werner Koeppl (projeto YouGreen), Rafael Ferraz de Barros (projeto Atropelados: ecologia das estradas, para diminuir as mortes de animais silvestres nas estradas), Ricardo Thaler Beck (Cadico minhocas), Bárbara Pereira Borges (Reciclagem do óleo de cozinha), Gabriel Estevam Domingos (Reutilização de fosfogesso) e Alan Henrique Marques de Abreu (Produção de mudas).
 
u        O Programa Bayer Jovens Embaixadores Ambientais é uma iniciativa conjunta com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), realizada, desde 1998, na Tailândia, com participação de Filipinas e Cingapura. Atualmente, é realizada em dezenove países, entre eles o Brasil, desde 2004. Podem se inscrever estudantes do ensino médio, superior ou de pós-graduação, entre 18 e 24 anos, que participem de projetos socioambientais.
 
u        Os projetos inscritos são avaliados por uma comissão, que seleciona oito deles, em duas etapas, no período de 17 de julho a 09 de setembro de 2013. Na primeira etapa, são considerados os critérios de contribuição do projeto para a preservação do meio ambiente e para a promoção do desenvolvimento sustentável; avaliação da efetiva contribuição do estudante para o desenvolvimento e sucesso do projeto; resultados ambientais e sociais obtidos ou esperados com o projeto; e possibilidade de adequação do projeto para multiplicar a experiência. Desde 2012, o voto popular pode ser atribuído pelo Facebook, resultando em um acréscimo na nota final dos participantes.
 
u        A segunda etapa do processo de seleção inclui entrevista com o estudante inscrito, teste de conhecimentos no idioma inglês, entrevista com a pessoa de referência indicada, apresentação de autorização para a inscrição do projeto e visita pessoal de representante da Bayer ao projeto. A premiação inclui a possibilidade de intercâmbios e a atribuição de valores correspondentes a R$ 3 mil para o 8º colocado, até R$ 20 mil para o 1º lugar. Os premiados serão conhecidos no dia 10 de setembro de 2013 e as inscrições podem ser feitas até o dia 28 de junho, conforme orientações disponíveis na página www.bayerjovens.com.br .
 
Coca-Cola condenada
 
A Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), por unanimidade, em grau de recurso, manteve a multa de R$ 460 mil, aplicada pelo Procon à Minas Gerais Ltda., produtora da Coca-Cola. Na sessão de 14 de maio passada, o STJ decidiu pela pena por que a empresa reduziu o conteúdo envazado nas garrafas de Coca-Cola, Sprite, Fanta e Kuat, de 600 ml para 500 ml, sem informar adequadamente aos consumidores, caracterizando assim “aumento disfarçado” de preços.
 
Por considerar que os consumidores já desenvolveram o costume de levar em consideração a marca, mais do que os detalhes do rótulo, a empresa deveria ter atuado preventivamente para que a informação sobre a redução de volume fosse ostensiva, clara e precisa, zelando assim pela confiança do consumidor, conforme o relator do recurso, Ministro Humberto Martins.
 
Conheço quem ache que, pela redução do volume envazado, a empresa deveria ser premiada e não punida...
 
Paulo Márcio de Mello
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
 
A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001,
toda quarta-feira, no centenário jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Na contramão.

                                                                                                                                                                 Quarta-feira, 15 de maio de 2013
coluna Empresa-Cidadã 
Paulo Márcio de Mello

Quando maio de 2015 começar, estará concluído o ciclo dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), instituídos pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2000, como “maior esforço global de combate à pobreza da História”, no dizer do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

Os oito objetivos estipulados são erradicar a extrema pobreza e a fome; atingir a universalização do ensino básico; promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde materna; combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental e; estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento.

Para alcançar as metas até 2015, a ONU está realizando uma campanha de mobilização, denominada MDG Momentum: 1000 Days of Action, em que há uma forte expectativa de contribuição das mídias sociais para o derradeiro esforço da campanha. A hashtag#MDGmomentum será mobilizada nesta reta final.

No Brasil, alguns aspectos que ainda podem impactar os ODMs merecem especial atenção, como no caso do ingresso das crianças na educação infantil. Apesar da porcentagem de crianças até 6 anos em extrema pobreza ter caído de 13,3% para cerca de 3%, ainda se observa uma forte discrepância entre as situações, conforme as classes sociais.

Dados apresentados pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República indicam que, em 2011, 45% das crianças com até três anos de idade, originárias das famílias localizadas no topo da pirâmide, os 10% mais ricos, frequentavam creches. Entre as famílias na base da pirâmide, os 10% mais pobres, o acesso à creche situou-se em torno de apenas 12%.

A distância entre estas crianças também aumentou. Entre 2001 e 2011, na proporção entre as que frequentaram creches, observou-se um crescimento de 14 pontos percentuais, entre os 10% mais ricos, enquanto entre as crianças situadas nos 10% mais pobres, o crescimento foi menor, de 6 pontos percentuais.

Outro aspecto importante está retratado no artigo “Fracasso Escolar e Desigualdade do Ensino Fundamental”, realizado pela pesquisadora Paula Louzano e publicado no relatório “De Olho nas Metas de 2012”, lançado pelo movimento Todos pela Educação, com base no questionário da Prova Brasil 2011, respondido por 2,3 milhões de alunos do 5º ano, em âmbito nacional. O artigo conclui que, quando os estudantes chegam ao 6º ano do ensino fundamental, 7% dos alunos brancos têm mais de dois anos de atraso escolar, mas entre os negros, o indicador chega a 14%.

Em relação aos casos de reprovação ou abandono, um terço das crianças havia experimentado a situação de insucesso na escola. Destes, 43% se autodeclararam pretos, 34% pardos e 27% brancos. Observados os resultados regionais, verifica-se que na região Sudeste, a que apresenta os menores índices nacionais de reprovação ou abandono, estas foram as opções de 36% dos alunos pretos, 27% dos pardos e de 22% dos brancos.

A diferença de gêneros também pondera os resultados. Os menores índices de fracasso na escola (ou da escola...), observados na região Sudeste, para meninos pretos é 42,3% e para meninas pretas é 29.8%. Entre meninos brancos, o percentual é de 26,5%, enquanto entre as meninas brancas é de 17,3%.

No Nordeste, estudantes do sexo masculino, autodeclarados pretos, têm 59% de chances de serem vitimados pelo fracasso escolar. No Norte, o índice é de 59,3%. A expectativa de uma menina, autodeclarada preta, fracassar na região Nordeste é 45,5% e de 45,8%, na região Norte.

Entre os alunos, autodeclarados brancos, observou-se o índice de 50,9% de insucesso na região Nordeste e de 52,2%, na região Norte. Entre as meninas, os índices são de 37,5% na região Nordeste e de 38,8% na região Norte.

Na contramão dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, aumentou a escassez de recursos para que os países de baixa renda universalizem o ensino básico, nos últimos três anos, conforme números do relatório “Tornar a Educação Acessível até 2015 e no Período Posterior” (Making Education for All Affordable by 2015 and Beyond), apresentado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Dos necessários US$ 53 bilhões anuais para universalizar o ensino fundamental, apenas metade é investida, acarretando um déficit de cerca de US$ 26 bilhões anuais. Se o ensino médio for incluído na conta, a necessidade de recursos passa para US$ 77 bilhões anuais, elevando o déficit para US$ 38 bilhões anuais.

Paulo Márcio de Mello
paulomm@paulomm.pro.br
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001,
toda quarta-feira, no jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
Através dela, são apresentados conceitos relativos
à responsabilidade social, à sustentabilidade e ao desenvolvimento sustentável,
casos de empreendedores e empresas, pesquisas, resenhas, editais ou agenda.