segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Muito além da economia verde
                                       
“É preciso repactuar a forma como as sociedades contemporâneas usam as bases energéticas, materiais e bióticas das quais depende sua reprodução”.
É o alerta do sociólogo e economista Ricardo Abramovay,
nesta oportuna entrevista, concedida à jornalista Rose Spina,
editora de Teoria e Debate, às vésperas da Rio+20.
 
blog do professor paulo márcio
economia&arte
 
www.teoriaedebate.org.br/materias/nacional/muito-alem-da-economia-verde
15 de junho de 2012 – Edição 101
 
Ricardo Abramovay, professor titular do Departamento de Economia da FEA e do Instituto de Relações Internacionais da USP, concedeu esta entrevista à Teoria e Debate em um intervalo na agenda carregada de palestras, exposições e conferências, a poucos dias da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. Aqui como em seu livro Muito Além da Economia Verde, o economista explica por que mais importante que a governança da economia verde, eixo da Rio+20, é a governança dos processos que contribuirão para a reduzir a desigualdade e aumentar as possibilidades do desenvolvimento sustentável.
 
Diante do atual modelo econômico que é um verdadeiro pacto de suicídio global, na definição de Ban-Ki Moon, Abramovay é otimista com a possibilidade de avanços no debate socioambiental envolvendo governos, empresas e movimentos.
 
Qual sua avaliação sobre o cenário em que ocorre a Rio+20, com a proposta de tratar a economia verde e governança do desenvolvimento sustentável?
 
A Rio+20 ocorre em um momento de declínio dos sistemas internacionais de governança do desenvolvimento sustentável de forma generalizada. Isso se exprime por alguns fatos. Primeiro, pela incapacidade de as conferências climáticas chegarem a alguma conclusão de efeito prático. Depois de dezessete conferências climáticas, a economia global continua aumentando a emissão de gases de efeito estufa e os progressos, tímidos, mas reais, que houve durante os primeiros anos da década passada foram revertidos durante a recuperação da crise econômica. Em 2000, os cientistas reunidos no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas afirmaram que era preciso ter como horizonte a redução de 2% das emissões para cada unidade de valor (dólar, euro etc.) lançada na economia mundial. Se houvesse continuidade, seria suficiente para se chegar a 2050 elevando a temperatura em apenas 2 graus, e com perspectiva de estabilizar neles.
 
No entanto, de 2000 a 2008, a redução foi de 0,7%, muito menos do que seria preciso por unidade de valor. Além disso, a economia cresceu, o que aumenta a pressão sobre os recursos. Em 2008, a redução já não deveria ser de 2%, mas de 3,4%. Houve a crise, a emissão diminuiu muito. Só que a partir de 2010, em vez de manter patamar, a economia se recuperou aumentando a emissão em termos absolutos. Cada dólar foi produzido com mais emissões. Isso fez com que a Price Waterhouse, uma das maiores consultorias globais, caracterizasse a retomada da crise de 2008-2009 como dirty recovery, retomada suja.
 
E quem foi o responsável por essa sujeira? A Índia e a China, de um lado, e os Estados Unidos, do outro. Os dois verões americanos foram muito quentes, então as pessoas usaram mais ar-condicionado, solicitando o sistema elétrico. Ou seja, há mais gases de efeito estufa, em parte, para satisfazer necessidades de países em desenvolvimento como China e Índia, mas em grande parte para os carrões americanos que continuam sendo produzidos, as SUVs, os light trucks americanos etc.
 
Menciono isso para mostrar a distância entre as negociações internacionais e o que acontece no funcionamento real da vida econômica. Há certa impermeabilidade da vida econômica para as reais necessidades de gestão do ecossistema. Se voltarmos à questão da biodiversidade, apesar da criação de parques, reservas e áreas protegidas em alguns países em desenvolvimento – particularmente no Brasil, mas um pouco na Indonésia também –, de maneira geral a erosão da biodiversidade não foi em nada atenuada. A constatação é que o ritmo de extinção de espécies continua tão acelerado como antes da Convenção da Biodiversidade, do Protocolo de Nagoya etc.
 
E como isso influencia a Rio+20?
 
A Rio+20 ocorre em um momento em que os Estados Unidos não podem dar atenção a esse tema em função da sua situação eleitoral, além do que, nos últimos anos, o governo Obama acentuou a opção norte-americana de segurança energética baseada no fortalecimento da matriz fóssil de sua base produtiva. As piores formas de energia fóssil são as areias asfálticas do Canadá, que é o xisto betuminoso, ineficiente e altamente emissor. E agora, por meio da Shell, perfuram e buscam poços de petróleo no Alasca. Aliás, o relatório das Nações Unidas, Global Environment Outlook, mostra que os Estados Unidos estão em retrocesso com relação ao tema das mudanças climáticas.
 
Do ponto de vista de governança global, a Rio+20 ocorre em um momento extremamente delicado de perda de prestígio e de ineficiência dos mecanismos existentes e de ausência de alternativas para gerir a pressão que a economia exerce sobre os ecossistemas de maneira minimamente racional.
 
O que abrange essa governança global?
 
Governança não é engenharia administrativa, supõe que haja forças sociais, uma coalizão social capaz de se contrapor à coalizão social dominante. Essa última, apesar de toda a informação existente a respeito dos impactos da vida econômica sobre os ecossistemas, no plano da economia mundial fortalece as piores práticas na relação entre sociedade e natureza, entre economia e ecossistema. É formada por pelo menos três segmentos fundamentais: a indústria automobilística, que se fosse um país seria a sexta economia do mundo; a indústria petrolífera, que recebe subsídios seis vezes maiores que os destinados à energia de fósseis; e a indústria agroalimentar, que faz o uso mais predatório dos recursos existentes e é responsável pelas mais graves doenças contemporâneas, aquelas relativas à obesidade.
 
Esses três setores constituem uma espécie de força no sentido de perenizar a maneira como se usam os recursos, as políticas macroeconômicas voltadas a esses recursos e os comportamentos dos atores privados e públicos, diante desses recursos. No conjunto, um fantástico obstáculo à transição para aquilo que precisamos, uma economia de baixo carbono, com uso racional dos recursos, voltada para as necessidades das pessoas etc. Aí vem a economia verde.
 
Qual o significado de economia verde? Há certa resistência de muitos ambientalistas à economia verde.
 
Essa resistência é compreensível, mas há um certo sectarismo também. Como é um termo relativamente novo, as definições são as mais variadas. Por exemplo, para José Eli da Veiga, a definição inicial de economia verde é melhoria do bem-estar, redução das desigualdades, sem aumento da pegada ecológica. É uma boa síntese.
 
Fundamentalmente, engloba três dimensões. A primeira é o processo de transição das energias fósseis para as renováveis. Não é possível conceber que a economia deixe de ser marrom para ser verde se continuar dependente de petróleo, carvão e gás. Então, intuitivamente, é a mudança na base energética da economia contemporânea. Por mais que as energias renováveis estejam se desenvolvendo, ainda é pouco e o peso das fósseis é tão dominante que, mesmo que esse crescimento seja imenso, o século 21 ainda será dos combustíveis fósseis.
 
As mais promissoras são a solar, a eólica, a geotérmica e os biocombustíveis modernos, não esterco, lenha e carvão, com o que se cozinha no interior da Índia e da China. Isso é energia renovável, mas é a coisa mais atrasada que existe, provoca doença. O que há de energia renovável moderna é menos de 1% da matriz energética mundial. E o pior é que cada vez mais se investe no que já existe na economia para amortizar o que se investiu, em postos de gasolina, gasodutos, oleodutos, poços de petróleo etc. Mais tempo se persistirá no que está sendo feito, e isso dificulta a emergência das novas formas de energia.
 
Então, já que ainda teremos de contar com fontes fósseis, a segunda dimensão é a ecoeficiência – melhorar o uso dos materiais, da energia, dos recursos bióticos nos quais a economia, a oferta de bens e serviços se apoiam.
 
E a terceira dimensão é a transição da economia da destruição da natureza para a economia do conhecimento da natureza. Hoje os principais biomas do mundo, sobretudo nos países tropicais, são usados sob a lógica da destruição, a Floresta Amazônica, a caatinga, o cerrado, as savanas africanas... Isso se exprime no fato de que a Amazônia é hidroeletricidade, commodities agrícolas, commodities de minerais. É preciso transitar disso para uma economia de utilização sustentável dos produtos e dos serviços da floresta em pé. Usar os recursos com maior eficiência é a ideia central da economia verde.
 
Então, por que essa ideia desperta oposição?
 
Acho que por duas razões. Primeiro porque sinaliza uma solução: é possível que o avanço científico e o progresso tecnológico sejam capazes de contrabalançar os impactos negativos que o funcionamento da economia tem sobre os ecossistemas. Essa capacidade é verdadeira em parte. Por exemplo, em 2012, cada dólar na economia mundial foi produzido com base em emissões de gases de efeito estufa 21% menores que em 1992. Trata-se de um avanço. A eficiência no uso dos materiais foi maior, só que as emissões aumentaram globalmente 39% e o uso de materiais, 41%. A economia mundial cresceu tanto que contrabalançou o ganho de eficiência.
 
O problema da economia verde não é o esforço de produzir com maior eficiência – não fosse isso nossa situação estaria muito pior –, mas sim a crença de que esse esforço substitui a urgente necessidade de a sociedade pensar o significado, o propósito, o alcance e os objetivos do crescimento econômico. Por mais que as mudanças técnicas possibilitem menor uso de energia e de materiais, menores emissões, os números mostram como é ilusório imaginar que o progresso técnico será capaz de contrabalançar os impactos do crescimento econômico acelerado sobre os ecossistemas. O grande paradoxo que procuro discutir no livro Muito Além da Economia Verde está nessa equação. Estamos muito aquém da economia verde. Nossa economia é muito mais suja do que poderia ser. Basta sair na rua e ver a poluição, a sujeira dos rios etc.
 
É preciso muito mais do que repensar as bases tecnológicas da economia contemporânea. É preciso repactuar a própria maneira como as sociedades usam as bases energéticas, materiais e bióticas das quais depende sua reprodução. E isso passa por um debate social que apenas se inicia, e para o qual talvez a Rio+20 possa dar uma contribuição sobre os significados e os objetivos do próprio crescimento econômico.
 
Pela primeira vez temos questões que serão cruciais não apenas para um círculo minoritário de alternativos, mas para importantes segmentos do meanstream tanto do pensamento econômico como das empresas. Crescer para que e para quem? Para que se está produzindo tanto carro, tanta comida?
 
Essa questão se colocou para sociedade há trinta anos, quando, por exemplo, no Brasil o IPI do cigarro correspondia à maior parte da arrecadação. Hoje ninguém diria que devemos continuar produzindo cigarro porque promove tanta arrecadação que vale a pena. Então, por que raciocinar desse modo com relação a carros?
 
A economia verde não é irrelevante. É um equívoco subestimar a importância da inovação tecnológica nas mudanças pelas quais teremos de passar. Mas tem de ser acompanhada de limites.
 
No Brasil, o sistema de inovação ainda é do século 20, voltado para a produtividade do capital e do trabalho. Precisamos de um sistema de inovação voltado para a sustentabilidade – reduzir o uso de materiais, de energia, de recursos bióticos, fundamentalmente. Mas precisamos de limites, porque a inovação por si só não promove a compatibilidade entre o sistema econômico e a capacidade de os ecossistemas continuarem nos prestando serviços.
 
E como fazer isso?
 
Ninguém sabe. O que sabemos fazer tem um parâmetro muito claro e relativamente simples, o Produto Interno Bruto. O crescimento do PIB se exprime também do ponto de vista das decisões privadas, na sua lucratividade. São desconhecidos ou pouco conhecidos, porém, os parâmetros para uma lógica alternativa em que o sistema econômico se paute pela oferta de bens e serviços que correspondam a ganhos reais de bem-estar para as pessoas, dentro dos limites dos ecossistemas.
 
Começa a haver um esforço para que sejam revelados os custos ocultos da maior parte do que o sistema econômico oferece à sociedade, mas ainda é segmentado. Houve um momento em que as pessoas exaltavam o veículo individual movido a etanol pelo fato de ser menos emissor de gás de efeito estufa que os a gasolina. Só que era ineficiente, uma forma destrutiva e inútil de tentar garantir mobilidade. Como medir o que cada carro novo na rua está reduzindo de bem-estar pela destruição do tecido urbano? As empresas ainda não têm instrumentos para comparar o valor intangível dos investimentos que podem fazer em reais utilidades socioambientalmente construtivas, mesmo que em alguns casos façam. Sobretudo se têm de comparar esses investimentos com aqueles que geram recursos de caixa que vão beneficiar os acionistas imediatamente.
 
Mas há diagnósticos de que o sistema econômico mundial já ultrapassa algumas barreiras ecossistêmicas...
 
Os sinais da exaustão dos ecossistemas diante da expansão do sistema econômico já estão se exprimindo nos preços. Por exemplo, o século 20 se caracterizou por um declínio durável dos preços das commodities agrícolas e minerais. E os primeiros anos do século 21 se caracterizam pela alta e imensa volatilidade dos preços dessas commodities, muitas vezes decorrente do fato de que a exploração desses recursos está cada vez mais cara.
 
Há quem diga que a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra e a idade do petróleo não vai acabar por falta de petróleo. Mas, se fisicamente não está acabando, o custo de sua exploração, não podemos esquecer, é cada vez mais alto.
 
Como é que você vê o Brasil no contexto da Rio+20?
 
O Brasil tem dois trunfos importantes. Na Amazônia, o desmatamento caiu de 24 mil km2 em 2004 para menos de 7 mil km2, atualmente. Ainda é um escândalo, em pleno século 21, que se desmate tanto, mas a redução é muito forte e foi resultado de uma política governamental, de repressão. O segundo trunfo é sua matriz energética muito mais limpa que a de qualquer outro país de sua importância.
 
Mas o Brasil tem problemas muito sérios, tem sua vida econômica profundamente vinculada à exportação de produtos agrícolas e minerais, ou seja, de recursos ecossistêmicos básicos. A América Latina e a África são os dois continentes cuja biocapacidade ainda supera a pegada ecológica. Nesses lugares, o conjunto de recursos é superior ao que a humanidade extrai, e exatamente por isso as forças destrutivas se instalam e oferecem ao sistema econômico mundial as bases materiais da sua expansão. Isso é o que recente documento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) chamou de reprimarização da economia. Os setores primários ganham maior importância que a economia da informação, do conhecimento, que caracteriza a economia moderna.
 
Uma das expressões dessa reprimarização é a desindustrialização. E, quando se trata de combatê-la, a atitude do governo brasileiro não poderia estar mais distante de qualquer coisa que se assemelhe a economia verde. Entre as medidas, nenhuma tem relação alguma com economia verde.
 
Quando a indústria automobilística americana passou o chapéu na Casa Branca, na crise de 2008, houve uma contrapartida de aumento de eficiência dos motores, que deveria ser de 5% ao ano, entre 2008 e 2020, que é considerável.
 
No caso do Brasil há estímulos sem contrapartidas...
 
Sem nenhuma contrapartida. Houve a reunião dos 25 líderes industriais com a presidenta Dilma, e o único momento em que se falou em meio ambiente foi quando um dos dirigentes reclamou da lentidão do licenciamento ambiental.
 
O Brasil tem condições de exercer papel de liderança no sentido de incorporar exigências socioambientais aos critérios que regem o comércio mundial, mas se adapta ao grupo do qual faz parte, o G-77, com mais de 130 países. Deveria batalhar para que o comércio de produtos primários tenha de passar por certificação socioambiental. Qualquer vestígio de poluição, e não apenas o trabalho infantil, o trabalho escravo, deve sofrer punição severa.
 
Às vezes dá a impressão que voltamos para o tempo em que o Ministério do Meio Ambiente foi criado, que se referia basicamente a florestas e ofertas de energia para suprir a crise do petróleo, mas não à maneira como a economia industrial funcionava. Há progressos. O Brasil é, por exemplo, recordista mundial de reciclagem de alumínio, recicla muito papel. Mas o planejamento econômico brasileiro não é norteado por um uso mais eficiente dos seus recursos ecossistêmicos.
 
O que significa repensar a economia diante desses desafios políticos e ambientais?
 
A ideia de que a economia é um sistema autônomo, diante do qual a principal preocupação é fazê-lo girar, porque traz efeitos positivos, mas também tantos males, desperta em um variado conjunto de forças sociais a necessidade de repensar não só como se produz, como se distribui a renda, mas para que e para quem se produz.
 
Acho que há novidades políticas que abrem alguma brecha diante dessa situação. A primeira é o fato de que está cada vez mais evidente que o uso dos recursos que pertencem às empresas, que os consumidores compram etc., não pode ser considerado questão privada, mas passa cada vez mais a ser uma questão pública.
 
Nos anos 1970, as ações do Greenpeace eram voltadas para baleia, urso polar; nos anos 1980 e 1990, contra governos e organismos multilaterais; nos anos 2000, as mais impactantes foram voltadas diretamente para empresas.
 
A novidade é que organizações da sociedade civil passam a ter maior incidência sobre a maneira como são usados os recursos considerados privados. As empresas, os grupos empresariais respondem a uma exigência social de prestação de contas que é igualmente inédita. Quando pensamos no mundo das mercadorias como Marx o conheceu, dentro da fábrica havia um rígido planejamento e uma placa escrita “proibida a entrada salvo para negócios”. Só quem entendia daquilo podia entrar. Hoje não é assim, e cada vez mais as bases materiais, energéticas e os procedimentos das empresas têm de se submeter à exposição pública. Há empresas de consultoria especializadas em gestão de stakeholders. Uma grande mineradora ou siderúrgica que polui rios tem uma assessoria para lidar com a população atingida. Isso é um imenso avanço no modo como os mercados e a vida empresarial se organizam. Claro que predomina de maneira avassaladora ainda o greenwashing, a propaganda enganosa.
 
O novo é a participação da sociedade civil, a exigência de transparência, de mecanismos de transparência, a transformação das próprias organizações da sociedade civil no sentido de compreender o universo empresarial. Hoje as empresas podem ser consideradas parte dos atores sociais que estão nesse universo de transformações sujeitas a pressões.
 
Outro elemento importante, a que dedico o quarto capítulo do livro, é o fato de que a sociedade da informação em rede trouxe à tona um conjunto de dispositivos que permitiram que a cooperação social ganhasse uma escala absolutamente inédita mesmo no âmbito de sociedades capitalistas, com a produção de bens e, sobretudo, de serviços dentro de uma lógica que não é mercantil. O Wikipédia, por exemplo, é o sétimo site mais consultado da internet, e totalmente gratuito.
 
Então, acho que existem dois verdadeiros movimentos sociais exercendo pressão sobre a organização da vida econômica contemporânea que oferecem as bases a partir das quais podemos pensar mudanças de fôlego para o que temos de enfrentar.
 
Fala-se em mudança de matriz energética, mas existe 1,4 bilhão de pessoas sem energia elétrica no mundo. Fala-se em diminuir o consumo, mas ainda temos mais 2 bilhões de pessoas abaixo da linha de pobreza. Como lidar com essa contradição?
 
Esse é o tema mais importante da Rio+20. O objetivo fundamental do desenvolvimento sustentável é conseguir em um período muito curto tirar esses bilhões de pessoas da miséria absoluta, atender as sem energia elétrica, 2,5 bilhões sem acesso a saneamento básico, 800 milhões sem água potável, 1 bilhão que passam fome, e ainda há crianças que não vão a escolas por uma série de razões.
 
É preciso voltar meios, técnicas, dinheiro, inteligência etc. para erradicar a miséria absoluta do mundo, pois os recursos materiais existem. É claro que, se isso for feito, se reduzirá a desigualdade, porque melhora a situação dos que estão na base da pirâmide. Mas é totalmente ilusória a perspectiva de reduzir as desigualdades apenas elevando o padrão de vida dos que se encontram na base da pirâmide sem tocar no padrão de vida dos que se encontram no topo dela.
 
O combate à pobreza, como está apresentada pelo Rascunho Zero e pelo documento brasileiro apresentado à Rio+20, é bastante justo. Hoje, metade dos gases de efeito estufa são emitidos por 500 milhões de pessoas, de uma população de 7 bilhões. Se não tocar no que fazem essas pessoas, as contas não vão fechar. Uso um exemplo no livro que deixa essa ideia bem clara: a humanidade extrai da terra 60 bilhões de toneladas de quatro materiais, biomassa, combustíveis fósseis, materiais de construção e minérios, anualmente, dados de 2005. Se continuar nesse ritmo, o total anual extraído chegará a 80 bilhões em 2020 e a 100 bilhões em 2030.
 
Cada um de nós que pesa entre 70 e 90 quilos consome, em média, 9 toneladas desses materiais por ano. Só que tem um detalhe: um indiano consome 4 toneladas e um americano, 25. Imaginar que a luta contra a desigualdade consiste em fazer com que o indiano passe a consumir 25 é completamente ilusório, porque não tem material para isso. Achim Steiner expõe essas informações no prefácio do documento do Pnuma e diz que em 2050 a humanidade terá de consumir, em média, 6 toneladas de materiais. Para o indiano que consome 4, haverá aumento de 50%, e para o canadense, o americano, que consome 25, a solução será economia verde, progresso técnico, melhor uso de materiais. Será preciso ter limites.
 
E que limites e como estabelecê-los? Quais serão as punições para quem ultrapassá-los?
 
Essas questões estão sendo colocadas de maneira cada vez mais aberta, mas os mecanismos pelos quais vamos conseguir equacioná-las ainda não estão claros. E um dos indícios mais expressivos disso é o fracasso das sucessivas conferências climáticas. Há conhecimento consolidado, consenso, mas uma parte muito significativa do sistema econômico mundial continua oferecendo e usando bens de maneira destrutiva para a espécie humana, para vida social.
 
Há mecanismos de autojustificação, do tipo “vamos fazer captação de carbono, vamos conseguir compensar isso de alguma forma”, e tem o simples e puro cinismo que caracteriza em grande parte a atitude de vários segmentos industriais, principalmente das indústrias automobilística, petrolífera e agroalimentar. As três mais fortes têm uma atitude muito irresponsável.
 
Não lhe parece que pelo menos no Brasil, as forças progressistas, que estiveram sempre à frente dos movimentos, estão pouco preparadas para o debate ambiental?
 
Estão pouco preparadas para o debate social, de maneira geral, para o debate a respeito de mudanças socioambientais, mas não só no Brasil. Na Europa há um drama vivido pela esquerda que não foi equacionado. A ideia-chave que norteou o pensamento de esquerda, mesmo depois que se renunciou à luta armada e ficou nítido que a transformação passava pelo fortalecimento das organizações democráticas, a democracia como valor universal, era estatizar os grandes monopólios – que era o programa da União Popular, na França, em 1981.
 
Assim teríamos nas mãos do Estado a capacidade de investimento público e, no fundo, a capacidade de produzir a maior parte do excedente social, que deixaria de se destinar ao lucro e passaria a responder a reais finalidades sociais. No governo Mitterrand, desde o nascimento de Marx, de certa forma, foi a última tentativa que se viu nessa direção, e nunca mais se falou nesse assunto. Nem o Comandante Marcos, nem o MST... Não há nenhuma força com expressão que preconize que o meio de enfrentar a crise contemporânea é nacionalizar, estatizar os meios de produção e troca.
 
Só que não foram tiradas as consequências disso. Como colocar a vida econômica da sociedade a serviço das necessidades sociais? Não me parece que a esquerda tem enfrentado de maneira rigorosa, do ponto de vista intelectual, o desafio que temos: como a economia pode se voltar para a satisfação das reais necessidades sociais com respeito aos limites ecossistêmicos no âmbito de uma organização social em que haverá empresas e em que mercados exercem um papel decisivo?
 
Dizer isso não é se render ao neoliberalismo. É obvio que o Estado tem papel central e temos organizações de economia solidária, organizações de softwares livres que entram no setor privado. Mas o discurso abstratamente anticapitalista tem cada vez menos conteúdo porque não responde às nossas necessidades. De duas uma: ou esse discurso deixa claro que o objetivo consiste em suprimir da vida social organização empresarial e substituí-la por organizações associativas ou estatais, ou o caminho é imprimir à vida econômica de uma sociedade, em que empresas e mercados têm papel essencial, os objetivos civilizatórios, que marcam as forças políticas de esquerda desde meados de século 19. Esses objetivos têm de ser alcançados com base em coalizões e meios completamente diferentes daqueles que foram originalmente pensados. Não é mais a classe operária que vai tomar o poder.
 
Rose Spina é editora de Teoria e Debate


sábado, 21 de dezembro de 2013

Guerra não declarada
                                             
O Brasil apresenta estatísticas de uma guerra não declarada, quando o assunto é trânsito. Uma tragédia, como esta, decorre de diferentes causas, mas uma delas fica evidente no recente episódio de hesitação entre ações de segurança ou ações de interesse econômico.
 
blog do professor paulo márcio
economia&arte
 
coluna EMPRESA-CIDADÃ
Quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Paulo Márcio de Mello*

 
u      As indenizações pagas por invalidez permanente, causada por acidente de trânsito, cresceram 36%, de janeiro a setembro de 2012, para o mesmo período de 2013. São 324.387 vítimas, em 2013, e 238.798, em 2012.
 
u      O número de mortos, até setembro de 2013, chegou a 41.761. No mesmo período de 2012, foram 45.769. Somados, os números de vítimas fatais e vítimas com gravidade, em 2013, chegam, portanto a 445.833, mais 25,4%, do que no ano anterior. Números de uma guerra civil não declarada, relembrada pela recente divulgação do boletim estatístico, do terceiro quadrimestre, pela Seguradora Líder do Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (Dpvat, www.seguradoralider.com.br/SitePages/boletim-estatistico.aspx).
 
u      Os homens representam 76% do total das vítimas. Aqueles com idade entre 25 e 34 anos, são as vítimas mais frequentes, com 22,1% do total. Seguem as faixas etárias compreendidas entre 18 e 24 anos, com 17,9 % das vítimas; de 35 a 44 anos, com 14,8%; de 45 a 64 anos, com 13,9%; de 8 a 17 anos (4,1%); maiores de 65 anos, com 2,4% e até 7 anos, com 0,8% das vítimas do sexo masculino.
 
u      As mulheres complementam o total de vítimas, com maior incidência da faixa etária de 25 a 34 anos (6,1% do total), seguida do intervalo entre 45 a 64 anos, com 4,9%; de 18 a 24 anos (4,6%); de 35 a 44 anos (4,4%); de 8 a 17 anos (1,9%); de mais de 65 anos (1,3%) e de até 7 anos, 0,5% do total de vítimas. O que faz com que o Brasil sustente esta inaceitável condição?
 
u      De acordo com DENATRAN, em agosto de 2013, a frota nacional de motocicletas representava 27% do total de veículos automotores. Apesar disso, respondeu por 41% das indenizações pagas por morte, de janeiro a setembro de 2013. Automóveis representavam 60% dos total de veículos automotores e responderam por 46% das indenizações pagas por morte.
 
u      Os acidentes com motocicletas corresponderam a 72% dos casos. Acidentes com automóveis representaram 23%, enquanto os episódios com caminhões foram 3% do total e com ônibus ou micro-ônibus foram 2%. O preço pago para a pizza chegar quentinha, ou para a correspondência ser entregue a tempo, em cidades com problemas crescentes de mobilidade, é muito alto.
 
u      No período, as vítimas eram condutores, na proporção de 60%; 23% pedestres e passageiros (17%).
 
u      O seguro Dpvat considera como vítimas, tanto os causadores dos acidentes, quanto os afetados. Os beneficiários do seguro têm até três anos para requerer o seguro. O valor, nos casos de óbito, é de R$13,5, mas varia conforme a lesão, nos casos de invalidez. Despesas médicas podem ser reembolsáveis, até o valor máximo de R$2,7 mil.
 
u      Na véspera da divulgação deste boletim estatístico, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (São Paulo) entregou ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, um pleito de adiamento para 2016, da obrigatoriedade de que todos os veículos produzidos no Brasil saiam de fábrica com equipamentos de segurança, como “air bags” e freios ABS. O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) estabeleceu que, em 2010, 10% dos veículos deveriam sair com estes equipamentos de fábrica. A partir de 2011, a proporção cresceu para 30% e em 2013, para 60%. A partir de 1º de janeiro de 2014, todos os veículos deveriam estar equipados.
 
u      Os motivos alegados pelo sindicato convergem para a prevenção de demissões, diante da inadaptação parcial do mercado à legislação, já que linhas de montagem que não se ajustaram, a tempo de atender à nova regulamentação, poderiam ser desativadas.
 
u      O argumento de que o emprego na produção dos novos equipamentos compensaria a desativação das linhas de produção de veículos mais antiquadas é liminarmente recusada pela diretoria do sindicato, alegando que a produção dos equipamentos de segurança, mais moderna, emprega menos trabalho. Por seu lado, a Fazenda ouve o pleito do sindicato com boa vontade, pois o aumento nos custos dos veículos poderia chegar a até R$1,5 mil, afetando os índices de preços.
 
u      A visão economicista, presente nos argumentos, tanto do sindicato, quanto da Fazenda, negligencia que a vida não pode ser a contra partida do emprego de uma categoria, nem do controle da inflação.
 
Paulo Márcio de Mello

Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

 

A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001, toda quarta-feira,
no centenário jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
Através dela, são apresentados casos de empreendedores e empresas,
pesquisas, resenhas, editais ou agenda, relativos à responsabilidade social, à sustentabilidade e ao desenvolvimento sustentável.
Está disponível também no blog do professor paulo márcio - Arte&Economia,
acessível através do endereço http://pauloarteeconomia.blogspot.com


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Entre a Sérvia e a Tailândia
                                                            
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, de 0,730, é classificado como “alto”. Quando, no entanto, este IDH é decomposto entre IDH de brancos e IDH de pretos e pardos, dois brasis, bem diferentes, aparecem.
 
blog do professor paulo márcio
economia&arte
 
 Quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
coluna EMPRESA-CIDADÃ
por Paulo Márcio de Mello*
 
u      O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, em 2013, atingiu 0,730. Com este IDH, o país ocupa a 85ª posição na classificação mundial. Desagregando-se o índice entre IDH dos brancos e IDH dos pretos e pardos, verifica-se que o IDH dos brancos estaria situado na 66ª posição na escala internacional, com 0,765.
 
u      Por outro lado, o IDH dos pretos e pardos, ficaria situado na 106ª posição no plano internacional, com 0,690. No primeiro caso, seria um índice próximo ao da Sérvia e, no segundo, próximo ao da Tailândia.
 
u      O estudo consta da edição de novembro de 2013, do boletim eletrônico Tempo em Curso, editado pelo Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER, www.laeser.ie.ufrj.br), do Instituto de Economia da UFRJ, coordenado pelo professor Marcelo Paixão.
 
u      A metodologia adotada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) classifica como baixo o IDH de países situados entre 0 e 0,535; médio, quando situados entre 0,536 e 0,710; alto, quando situados entre 0,711 e 0,799; e muito alto, se situados acima de 0,800.
 
u      Assim, o IDH do Brasil é classificado como alto, bem como o IDH da sua população branca, situado vinte posições acima da média nacional, enquanto o IDH da população de brasileiros pretos e pardos seria classificado como médio, dezessete posições abaixo da média.
 
u      Desde 1990, o IDH está presente nos relatórios de desenvolvimento humano do PNUD e, em 2010, teve a sua metodologia atualizada. É apurado a partir da média geométrica de três índices ajustados, correspondentes a aspectos de rendimento, de longevidade e de educação da população.
 
u      O Índice de rendimento é apurado com o emprego do logarítimo do PIB per capita, em dólares, conhecido como Paridade do Poder de Compra (PPC). Neste índice, o segmento representado pela população brasileira branca alcançou a cifra de 0,735 (alto). Pretos e pardos, por outro lado, obtiveram 0,645 (médio).
 
u      A diferença entre os resultados é explicada pela percepção do rendimento médio domiciliar per capita, em 2011, de R$1.162,64, pela população branca, enquanto a população preta e parda percebeu R$633,53. A média brasileira foi de R$891,42, correspondendo ao índice de 0,696.
 
O Índice de longevidade é apurado através da esperança de vida ao nascer. Em 2010, a esperança de vida ao nascer da população branca foi de 75 anos, gerando o índice de 0,865. Já a população preta e parda apresentou a esperança de vida ao nascer de 73,2 anos, determinando o índice de 0,836. No total da população, a esperança de vida ao nascer foi 74 anos, correspondente ao índice de 0,849.
 
u      O Índice de educação foi apurado a partir da escolaridade média da população acima de quinze anos de idade e da esperança de escolaridade, em 2011. A população branca apresentou 8,2 anos de escolaridade. Pretos e pardos apresentaram 6,4 anos de escolaridade. Para o conjunto da população residente, a escolaridade constatada foi de 7,3 anos.
 
u      O Índice de educação é complementado pela esperança de escolaridade, calculada pelo nível de matrículas da população em idade escolar, compreendida entre os 6 e 24 anos que, em 2011, para a população branca, foi de 13,7 anos de estudo e, para pretos e pardos, foi de 13,1 anos.
 
u      Assim, o Índice de educação, apurado através da média geométrica entre estes dois indicadores, para a população branca foi de 0,705 e para a população preta e parda foi de 0,609. Para o conjunto da população residente, o Índice de educação foi de 0,658.
 
u      Considerando os índices que formam o IDH, as maiores diferenças entre a população branca e a população preta e parda estão localizadas no Índice de educação (15,8%), seguido de rendimento (13,9%) e longevidade (3,4%).
 
u      O IDH é uma importante ferramenta de aferição do desenvolvimento humano, inspirada no conceito de graus de liberdade para o exercício da qualidade de vida, primeiramente apresentado pelo indiano Amartya Sen, considerando aspectos que podem compromete-la, como o nível de renda, o nível de educação e condições de saúde.
 
u      Uma fotografia das consequências que as diferenças de qualidade de vida podem acarretar entre os grupos sociais, pode ser vista na distribuição da massa de rendimentos recebidos pela população economicamente ativa (PEA), residente nas seis regiões metropolitanas mais populosas do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Porto Alegre), em setembro de 2013.
 
u      Do total dos rendimentos, a população branca concentrou 65,5% (mesma parcela detida em setembro de 2012), correspondendo 40,2% aos homens brancos e 25,3% às mulheres brancas. A parcela dos rendimentos detidos pela população preta e parda foi de 32,8% do total, sendo 20,4% recebidos pelos homens e 12,4% pelas mulheres.
 
Paulo Márcio de Mello

Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

 

A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001, toda quarta-feira,
no centenário jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
Através dela, são apresentados casos de empreendedores e empresas,
pesquisas, resenhas, editais ou agenda, relativos à responsabilidade social, à sustentabilidade e ao desenvolvimento sustentável.
Está disponível também no blog do professor paulo márcio - Arte&Economia,
acessível através do endereço http://pauloarteeconomia.blogspot.com


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

As corporações “fast-food”
                                                                                       
Quantas empresas podem exibir simetria
entre processos limpos, inclusivos e rentáveis
e produtos que não sejam devedores do bem comum?
Entre automóveis, “fast-food”, armas de fogo e outros,
quais serão os primeiros a acompanhar o cigarro
na virada da admiração ao repúdio?

blog do professor paulo márcio
 economia&arte
 

Quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
coluna EMPRESA-CIDADÃ
por Paulo Márcio de Mello*
 
u      A responsabilidade social de uma empresa está nas mercadorias que ela processa ou está nos processos de gestão que ela implementa? Esta dúvida tem áreas de muita clareza, como no caso de fabricantes de minas terrestres, que por mais “certificados” que sejam os seus processos, jamais se poderá atribuir a eles a qualidade de responsáveis.
 
u      Há outros casos em que empresas operam em uma área cinzenta, sem tanta nitidez quanto aos seus compromissos éticos, mas que remetem a uma “hierarquia” sobre a ordem de cassação das licenças que a sociedade, silenciosamente, outorga às organizações para que elas continuem produzindo.
 
u      Há o caso notório do tabaco que, a partir de 1968, com a divulgação do primeiro relatório em bases científicas, relacionando o fumo à saúde, ou à falta dela, em poucas dezenas de anos reconceituou a mercadoria, derrubando-a da montanha da admiração do consumidor, ao vale da repugnância. E cada vez mais, o uso do cigarro torna-se um hábito clandestino.
 
u      É frequente, nas conversas informais, alguém questionar quem seguirá o destino da rejeição, após o fumo. Está bem cotado nesta escala o automóvel, que já não representa o fetiche que representou em meados do século passado, sendo hoje justificado por usuários que quase pedem desculpas por utilizá-lo em consequência da falta da alternativa do transporte coletivo de qualidade, ou da inexistência de ciclovias seguras.
 
u      Poderiam entrar na relação a “fast-food”, já impossível de ser ingerida sem culpa, os combustíveis derivados de origem fóssil, como o petróleo e o carvão, entre outros. As poderosas corporações que produzem mercadorias como estas investem muito na dissimulação dos seus atributos, adquirindo outras empresas mais associadas pelo consumidor à percepção de saúde, ou de limpeza, ou de redução significativa da emissão de carbono, etc.
 
u      Nesta corrida contra o destino, oneram ainda mais o planeta com a transferência de astronômicos gastos publicitários para o preço das mercadorias, o que só é possível pelas imperfeições que os oligopólios acarretam no funcionamento dos preços, ou pela externalização de custos, igualmente resultado das imperfeições intencionais introduzidas nos mercados.
 
u      Tem que ser assim? Uma empresa pode atuar eficientemente sem obedecer a racionalidade única de perseguir o lucro a qualquer custo, como no uso do trabalho degradante, no esgotamento dos recursos naturais finitos e no desrespeito à diversidade cultural. Tudo acaba se transformando numa pasta, engrossada por ralouins, blequefraides, e coisas fora de lugar e circunstâncias.
 
Masan
 
Com menos de 20 anos de fundação, a Masan (www.masan.com.br) atua nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão, Rondônia e no Distrito Federal, em segmentos como o de gestão de alimentação, gestão de serviços e consultoria e treinamento em nutrição.
 
Em parceria com a Ong Entre Amigas, MetrôRio e o RioSolidario, mantém um centro de capacitação, onde são realizados cursos gratuitos, para qualificar os participantes para o mercado de trabalho, por meio do projeto Quebrando Barreiras.
 
A iniciativa atende à necessidade de preparação de pessoal qualificado para atender exigências compatíveis com o papel previsto para o Rio de Janeiro nos próximos eventos internacionais, como Copa do Mundo e Olimpíadas, e também à necessidade de inclusão social de camadas menos favorecidas economicamente no mercado de trabalho, fomentando o desenvolvimento socioeconômico e da cultura de respeito à cidadania na cidade.
 
Realiza os cursos de auxiliar e ajudante de cozinha, que têm como objetivo a formação de profissionais qualificados para exercerem tarefas de auxílio do cozinheiro, durante o preparo de alimentos. Durante três meses, os alunos aprendem sobre limpeza do local de trabalho, higiene pessoal, além de maneiras corretas de cortar, congelar, armazenar e conservar os alimentos. O curso é oferecido no centro de capacitação e na sede da UPP Providência.
 
O conteúdo programático teórico e prático inclui aulas de português, matemática, cidadania e ética, empreendedorismo, relações humanas e no trabalho, meio ambiente e sustentabilidade, higiene, segurança alimentar, normas técnicas e nutrição.
 
O curso de ajudante de cozinha também é realizado na cozinha escola do Novo Degase. Com duração de 10 meses, é destinado a jovens em cumprimento de medidas socioeducativas. Na primeira parte do curso, os participantes recebem aulas teóricas de matemática, cidadania e ética, entre outras. A segunda parte é composta por aulas práticas, em que os alunos aprendem sobre higiene e segurança na manipulação de alimentos e equipamentos e métodos de preparo de alimentos. Ao término dos cursos, todos os participantes participam do processo seletivo da Masan e, os interessados, são convidados a integrar o quadro de funcionários da empresa.
 
Paulo Márcio de Mello
paulomm@paulomm.pro.br
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001, toda quarta-feira,
no centenário jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
Através dela, são apresentados casos de empreendedores e empresas,
pesquisas, resenhas, editais ou agenda, relativos à responsabilidade social, à sustentabilidade e ao desenvolvimento sustentável.