Royalties sobre a água.
Os métodos de irrigação da grande produção agrícola, caracterizados por aqueles pivôs que projetam a água e propiciam belas fotografias, são os maiores responsáveis pelo desperdício de água. E não a torneira aberta enquanto se escova os dentes.
Saiba como o Brasil se torna cada vez mais um exportador de água. De graça.
Quarta-feira, 20 de março de 2013
coluna EMPRESA-CIDADÃ
por Paulo Márcio de Mello*
Há alternativas de
canaletas, gotejamento e outras que são poupadoras de água, sem comprometer a
produtividade da produção agrícola. Em novembro do ano passado, o governo
federal lançou um importante programa de incentivo à produção agrícola, chamado
Mais Irrigação, com muitos recursos e nem uma palavra para estimular a
substituição dos métodos que desperdiçam, por outros, mais poupadores. A
produção de produtos primários, com métodos abusivos de desperdício água, é
responsável por algumas das mais importantes “commodities” que sustentam as
exportações brasileiras.
Cada quilo de carne de
frango exportada alcançou o valor médio de US$ 1,89 no mercado internacional,
em 2012. Se a água fosse valorizada da mesma forma, caberia uma indenização por
seu uso da ordem de US$ 1,7 milhão, somente para o item carne de frango. Como,
no entanto, o produtor externaliza o custo da exaustão da água, isto é,
transfere a sua responsabilidade para a sociedade, a indenização devida é
“pendurada”, mas como é acumulada ano a ano, acabará sendo paga, quando a
escassez apresentar a conta da redução no estoque de água virtual.
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
por Paulo Márcio de Mello*
Sempre que se fala na
importância da água, como nesta semana em que se comemora o Dia Mundial da
Água. Alguém aponta o dedo na sua direção e tenta fazer com que você se sinta
culpado pelo uso deste recurso. Seja por que você demora muito no banho, ou não
fecha a torneira enquanto lava a louça, ou enquanto faz a barba, ou não
conserta a torneira que fica pingando, etc.
O que não se diz é que
este tipo de uso da água, o uso doméstico, representa tão somente 1% a 2% do
total. Claro que é correto poupar recurso tão precioso, mas se todos reduzissem
o banho à metade do tempo, fechassem sempre a torneira na hora de lavar a
louça, de fazer a barba e corrigissem de uma vez o pinga-pinga da torneira, o
ganho que se obteria com isso não seria maior do que 0,5% do consumo total.
Cada um estaria fazendo a sua parte. O mais importante, entretanto, é fazer o
que tem de ser feito.
Em que atividades se
desperdiça de verdade a água? Os outros tipos importantes do seu uso são o
realizado pelas empresas industriais e de outros setores (29%) e,
principalmente, o uso realizado no campo, nas grandes propriedades
agropecuárias (quase 70%). São os métodos de irrigação da grande produção
agrícola, caracterizados por aqueles pivôs que projetam a água e propiciam
belas fotografias, os maiores responsáveis pelo desperdício de água. E não tem
que ser assim.
Quarto maior produto
em importância na pauta de exportações de produtos básicos do Brasil em 2012,
responsável por uma receita da ordem de US$ 6,7 bilhões de dólares, a carne de
frango congelada, fresca ou refrigerada, incluindo miúdos, representou 2,78% da
receita de exportação brasileira. Para produzir este item, foram utlizados 13,9
bilhões de litros de água no ano passado.
Mais um exemplo pode
ser apresentado com outro item importante da pauta de exportações do país, o
oitavo entre os produtos básicos, a carne de bovinos congelada, fresca ou
refrigerada. O item gerou quase US$ 4,5 bilhões de dólares de receita de
exportação, em 2012, ou 1,85% da receita total da balança comercial. Para se
chegar à esta produção, foram necessários cerca de 14,7 bilhões de litros de
água, quase 15% mais do que foi utilizado em 2011.
Cada quilo de carne de
bovino congelada, fresca ou refrigerada alcançou o valor médio de US 4,7. Da
mesma forma, se a água necessária para se obter esta produção fosse valorizada,
caberia uma indenização mínima de US$ 287 mil, correspondente a este item
exportado.
Outro exemplo pode ser
apresentado com um item da pauta de exportações de produtos semimanufaturados
de ferro ou aços, responsável por uma receita de exportação de aproximados US$
3,8 bilhões. Trata-se de um item responsável por 1,58% do total da receita da
balança comercial. Esta produção foi obtida com o emprego de 4,0 trilhões de
litros de água. Cada quilo do produto foi vendido ao preço médio de US$ 0,58.
Se a água empregada na produção exportada desta “commodity” fosse também
valorizada, a indenização devida alcançaria pelo menos US$ 6,4 milhões.
Somente na produção
destes três itens, que somados representam 6,21% da receita da balança
comercial, deixam de ser indenizados US$ 8,4 milhões, em royalties devidos pelo
uso da água. O custo ambiental, externalizado pelos exportadores, não se sabe
exatamente quando será pago. Mas é certo que será pago, pelas próximas gerações
ou, quem sabe, por esta.
Há
uma perigosa ironia no uso da água como se não fosse um recurso escasso. Está
presente na velha sentença do pequeno comerciante do subúrbio, “fiado só
amanhã”.
*paulo
márcio de mello
paulomm@paulomm.pro.brProfessor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001, toda quarta-feira,
no centenário jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
Através dela, são apresentados casos de empreendedores e empresas,
pesquisas, resenhas, editais ou agendas sobre práticas
de responsabilidade social, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável. |