quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Petrobras. A volta por cima?
                                                             
A Petrobras exalta a força de trabalho
como o “maior ativo” de que dispõe para a recuperação.
No entanto, precariza o seu “maior ativo” com uma relação
De mais de três empregados terceirizados
para cada empregado efetivo.


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Coluna EMPRESA-CIDADÃ
Quarta-feira, 12 de agosto de 2015

u      Na mensagem de abertura do relatório anual de sustentabilidade da Petrobras, apresentado em seu site, em 11 de agosto, o presidente Aldemir Bendime atribui a redução no ritmo de investimentos e nas perspectivas futuras da empresa a três fatores, a saber. O declínio dos preços internacionais do petróleo, a apreciação do dólar e a necessidade de reduzir o endividamento.

u       Sobre os efeitos da operação “Lava Jato’, realizada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, refere-se ao empenho em esclarecer fatos e adotar medidas necessárias. Diz isto, no entanto, de forma inespecífica, com expressões como “reforçamos nossos padrões” (de quê?), “acionamos nossos mecanismos de controle”, etc.

u       Entre os muitos “estatutos éticos” com os quais poderia se comprometer, reforça apenas o comprometimento com “a evolução contínua no cumprimento” dos dez princípios do Pacto Global. Frustrante, para quem afirma “buscar sempre o desenvolvimento das localidades onde atuamos, o respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente, melhorias das nossas práticas de gestão, a transparência e a geração de valor aos nossos públicos de interesse”. Por fim, exalta o “maior ativo” para a recuperação, “que é a força de trabalho”.

u       Em 2014, os dois principais produtos da companhia foram o diesel (38,2% do total de receita de vendas no mercado interno) e a gasolina automotiva (28,2%). O terço complementar é constituído por eletricidade; gás natural; outros derivados de petróleo; nafta; querosene de aviação; óleo combustível; etanol, nitrogenados e renováveis; e gás liquefeito de petróleo.

Responsabilidade Social

No âmbito dos projetos de investimento, a gestão da responsabilidade social se desdobra em duas dimensões, Direitos Humanos e Desenvolvimento Local. Há dez temas prioritários, a saber. Povos indígenas e comunidades tradicionais; Acesso a meios de vida e ao ambiente saudável; Grupos socialmente vulneráveis; Práticas trabalhistas na cadeia de fornecedores; Direito à integridade e ao ambiente seguro; Educação e formação profissional; Geração de renda e oportunidade de trabalho; Desenvolvimento tecnológico e acesso às tecnologias; e Infraestrutura e serviços públicos.

O gerenciamento da responsabilidade social contará com uma matriz de riscos sociais de cada projeto de investimento, para atuar com vistas à mitigação de “evento incerto decorrente da interação entre as atividades do projeto e as comunidades do entorno e outras partes interessadas”. São relacionados treze grupos de partes interessadas. São eles “clientes; comunidade científica e acadêmica; comunidades; concorrentes; consumidores; fornecedores; imprensa; investidores; organizações da sociedade civil; parceiros; poder público; público interno; e revendedores”.

Aspectos financeiros

Em relação ao ano anterior, em 2014, apesar de um aumento no consumo mundial de petróleo de 0,7%, observou-se a queda de 9% do preço médio do barril (Brent). O resultado (prejuízo) apurado pela Petrobras foi de R$21,5 bilhões.

A considerar o primeiro semestre de 2015, este poderá ser um ano melhor. Neste semestre, a empresa obteve o lucro líquido de R$5,8 bilhões e o lucro operacional de R$22,8 bilhões. Comparado ao lucro líquido do mesmo período do ano anterior, observa-se uma queda de 43%. Se for comparado ao lucro da BP, ou da Chevron ou ainda ao da Exxon Mobil, verifica-se que essas gigantes viram o lucro desabar em 144%, 69% e 49%, respectivamente.

A queda acentuada dos preços do barril de petróleo é uma das causas da crise que afeta a indústria do petróleo, no caso da Petrobrás, agravado pela variação cambial. Apesar do cenário, a empresa aumentou a produção de petróleo e gás natural em 9%, chegando à marca de mais de 2,7 milhões de barris por dia. No pré-sal, a produção atingiu o recorde de 747 mil barris por dia, no mês de junho.

Entre tributos e participações governamentais, foram destinados R$47,6 bilhões à alçada federal; R$48 bilhões a estados; R$431 milhões a municípios; e R$6,8 milhões a não residentes (fora do país), totalizando 70,2% do valor adicionado. Gastos com pessoal e com administradores alcançaram R$ 31 bilhões, incluindo remuneração direta, salários, participações nos lucros ou resultados e benefícios, como o Programa de Incentivo ao Desligamento Voluntário, que recebeu R$ 2,4 bilhões.

Pessoal

Ao final de 2014, o Sistema Petrobras registrou 80.908 empregados. Destes, 83,2% são homens e 16,8% mulheres. Entre os “cargos de liderança” a participação das mulheres é de 15,2%. O número de empregados de empresas prestadoras de serviço (terceirizados) foi de 291.074, o que sugere a precarização da qualidade do trabalho, chamado de “maior ativo” para a recuperação da empresa, na abertura do relatório. O número de estagiários foi de 1.746.

Emissões e uso da água

O volume total de emissão de gases causadores do efeito estufa (GEE) foi de 80,9 milhões de toneladas de CO2 equivalente. No ano anterior, o volume emitido foi de 73,3 milhões de toneladas, configurando um aumento de cerca de 10%. O volume captado de água foi de 206,5 milhões de m3. O reuso, no mesmo período foi de 24,5 milhões de m3.

O Relatório de Sustentabilidade 2014 do Sistema Petrobras retrata conquistas e desafios. É inespecífico quanto a muitos aspectos fundamentais, porém.


Paulo Márcio de Mello
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001, toda quarta-feira,
no centenário jornal Monitor Mercantil (www.monitormercantil.com.br).
São mais de 600 edições apresentando casos de empreendedores e empresas,
pesquisas, resenhas, editais ou agenda, relativos à sustentabilidade,
à responsabilidade social e ao desenvolvimento sustentável.

sábado, 8 de agosto de 2015

“Uma atrocidade, uma coisa terrível, desumanidade”
                                                             
Será que ainda vamos ter saudades dos tempos
em que “morrer na contramão” atrapalhava o trânsito?
Atualmente, é “só” passar por cima.

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Coluna EMPRESA-CIDADÃ
Quarta-feira, 5 de agosto de 2015

u      O vendedor ambulante Adílio Cabral dos Santos foi atropelado por um trem da SuperVia, concessionária do serviço de trens urbanos do Rio de Janeiro, na terça-feira, 28 de julho, próximo à Estação de Madureira. Ex-presidiário, ele vendia balas e doces nos trens, como tantos outros.

u      Após o atropelamento e mesmo antes que qualquer profissional da saúde atestasse a morte do vendedor ambulante, funcionários da SuperVia, autorizados pela empresa, determinaram a passagem de uma composição sobre o suposto cadáver de Adílio. O pretexto foi o de não interromper a circulação na via, de resto fato habitual na SuperVia.

u      É possível questionar o que fazia o vendedor na linha do trem, para ter sido atropelado. Como outros tantos que continuam se expondo, simplesmente, evitava as fiscalizações, tanto da SuperVia, quanto do município e estadual, que reprimem duramente e confiscam (para ser delicado) as mercadorias. Mesmo de um ex-presidiário, que “puxa uma tranca”, sem ter a oportunidade de aprender um ofício com que sobreviva do lado de fora da prisão.

u      A ética peculiar da empresa contrariou a poesia. Será que ainda vamos ter saudades dos tempos em que “morrer na contramão” atrapalhava o trânsito? Atualmente, é “só” passar por cima. Restou à mãe do ambulante, Eunice de Souza Feliciano (61), o desabafo, “foi uma atrocidade, uma coisa terrível, desumanidade”. O governador do estado disse que o culpado vai ser punido.

u      No caso do vendedor ambulante Adílio dos Santos, é barbada saber quem vai pagar o pato. As imagens gravadas por celulares de diversos usuários dos trens destacam as figuras de dois funcionários, chamando a composição para passar por cima do suposto cadáver de Adílio.

u      A declaração do governador, no entanto, de que o culpado vai ser punido, abre uma questão central nas concessões de serviços públicos a empresas ou consórcios privados. Saber quem são os culpados pelas inúmeras atrocidades? Eles têm um rosto, um endereço, número do cpf? Questionável sob diversos aspectos, o processo de privatizações, que transformou o transporte coletivo em mercadoria, esconde quem responde pela segurança, higiene e qualidade dos serviços.

A SuperVia tem “sobrenome”. É Odebrecht...

u      Consta da página da Odebrecht (www.odebrecht.com.br) que a “SuperVia é o ativo da Odebrecht TransPort que administra os trens do Rio e o Teleférico do Alemão”. Um sobrevoo por seus dados contábeis, mostra que, em 2014, a SuperVia obteve a receita líquida de R$ 901,5 milhões, lucro bruto de R$ 155,5 milhões, e deduzidas as despesas, entre elas as de honorários da administração (R$ 4,8 milhões), apurou o lucro operacional de R$ 91,3 milhões, e o lucro líquido (descontados o imposto de renda e a CSLL) de R$ 16,6 milhões. Números que sugerem a possibilidade de serviços muito melhores.

u      Constituída em 1998, a SuperVia/Odebrecht TransPort é a detentora exclusiva dos direitos e obrigações do transporte coletivo de passageiros ferroviários do Rio de Janeiro, pelo prazo de 25 anos (até outubro de 2023), renováveis por mais 25 (até outubro de 2048). A tarifa sofre reajustes ordinários anuais (IGP-M) e a cada cinco anos. Também pode ser reajustada extraordinariamente, a qualquer momento, na vaga “ocorrência de circunstância que altere o equilíbrio econômico-financeiro do contrato”.

u      A renovação do ajuste pelo segundo período de 25 anos (aquele com vencimento em 2048) custou à empresa pouco mais de R$ 1,2 bilhão. Só que a SuperVia/Odebrecht TransPort não mete a mão no bolso. Este preço é saldado na modalidade de dação em pagamento, isto é, a empresa oferece como “moeda” algo de que ela disponha, sem mexer em dinheiro. No caso, a SuperVia oferece a vaga “revitalização de material permanente” (?), “aquisição de novo sistema de sinalização”, “aquisição de trens” e um mais inespecífico “etc”. Não há cronogramas, nem metas pactuadas.

u      Até hoje, no entanto, os únicos novos trens que entraram em operação foram os 30 “geladões”, adquiridos, pelo governo do estado, junto ao consórcio chinês China National Machinery Import&Export Corp. O governo do estado ainda se compromete com o reembolso à empresa de todo o passivo das extintas Central e Flumitrens transferido a SuperVia/Odebrecht TransPort, desde 28 de junho de 2007...

Os Jogos Olímpicos de 2016 aliviam o peso para a SuperVia/Odebrecht TransPort

u      Há menos de um ano, em 25 de agosto de 2014, novo termo aditivo firmado entre o governo do estado e a SuperVia/Odebrecht TransPort liberou a empresa do compromisso de adquirir 10 novas composições, de reformar outras 41, além de obrigar o estado a adquirir mais 22 novas composições, em troca da reforma de 6 estações, consideradas “estratégicas” para a realização dos Jogos Olímpicos de 2016, a saber, São Cristóvão, Deodoro, Magalhães Bastos, Vila Militar, Ricardo de Albuquerque e Engenho de Dentro.

u      As condições destas estações hoje, a um ano exato da abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, não sugerem qualquer vulto especial nas tais reformas, porém.

u      Alivia-se, assim, o peso da SuperVia/Odebrecht Transport, enquanto os “Adílios dos Santos” continuarão sentindo, às vezes literalmente, o peso do legado e do “a-legado” dos Jogos Olímpicos 2016.

Paulo Márcio de Mello
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Pés no chão.
                                                             
Em 2014, os gastos com calçados femininos no Brasil
foram maiores do que
os gastos com feijão, pão, leite, legumes e verduras.

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A temperatura média da superfície do planeta
alcançou o seu ponto mais alto em 135 anos.

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Cientistas denunciam os riscos
da terceira revolução nas armas de guerra.
Depois da pólvora e das armas nucleares,
armas capazes de escolherem os alvos, por decisão própria.


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Coluna EMPRESA-CIDADÃ
Quarta-feira, 29 de julho de 2015


u      Em 2014, os brasileiros despenderam cerca de R$ 22 bilhões em sapatos. Comparados aos gastos com calçados femininos, os gastos com feijão representaram apenas 64%, com pão francês 67%, com legumes e verduras 78% e com leite de vaca 92%. Casos de mercadorias em que os dispêndios foram maiores do que com calçados femininos foram os realizados com arroz (10%) e com carne de frango (28%).

u       Os gastos com calçados femininos atingiram a cifra de R$12 bilhões, representando 55% do total. Uma distância pequena em relação aos gastos com calçados masculinos, maior em 20%, contrariando a suposição de muitos. São conclusões derivadas de estudo realizado pela FecomércioSP (http://www.fecomercio.com.br/NoticiaArtigo/Artigo/13503), com base em informações da Pesquisa de orçamentos familiares (POF), do IBGE.

u       O estudo acrescenta que a maior distância entre os gastos realizados em calçados femininos e masculinos está na chamada classe “A”, responsável por 19% do total de gastos em calçados femininos, apesar de representar apenas 4% do total da população. Nesta classe de renda, os dispêndios em calçados masculinos representam 71% do que se gasta com os femininos.

u       Situada no polo oposto, a classe “E” é a única em que se verificam gastos com calçados masculinos em proporção maior do que com calçados femininos. Maiores em 4%, os dispêndios masculinos são igualmente distribuídos entre tênis e outras modalidades.

u       Reunindo os gastos das classes “A”, “B”, “C” e “D”, os dispêndios com tênis representam 60% do total. Entre os calçados femininos, os tênis são objeto de cerca de 25% dos gastos. O estudo sugere uma reflexão sobre o significado do que é essencial no consumo de brasileiras e brasileiros.


O apelo de Musk, Wozniak e Hawking

Centenas de pesquisadores assinaram carta aberta pedindo a proibição de armas autônomas ofensivas, a inteligência artificial aplicada na guerra. Divulgada na Conferência Internacional Conjunta de Inteligência Artificial em Buenos Aires (Argentina), a carta traz as assinaturas de nomes como os de Elon Musk, da Telsa, Steve Wozniak, um dos fundadores da Apple, de Demis Hassabis, executivo-chefe do Google e de Stephen Hawking.

A carta refere-se inicialmente à preocupação com armas IA, as que são capazes de tomar decisões autônomas sobre os alvos, descritas como “a terceira revolução na guerra, depois de pólvora e armas nucleares”.


Temperatura do planeta é a mais alta em 135 anos

Em 2014, os oceanos do mundo incharam, os principais gases responsáveis pela formação do aquecimento global bateram recordes e a temperatura da superfície do planeta atingiu seu ponto mais quente em 135 anos. É o que consta do Relatório sobre o Estado da Temperatura de 2014, estudo sobre temperatura, precipitação e eventos climáticos ao redor do mundo.

Um total de 413 cientistas, de 58 países, conntribuíram para o relatório, o 25º de uma série que se utiliza de dados reunidos por estações de monitoramento ambiental e instrumentos em terra, água, gelo e no espaço. O calor atingiu os oceanos e a atmosfera e os cientistas alertam que o clima continua a mudar rapidamente em relação ao período pré-industrial. O leste da América do Norte foi a única região do mundo que experimentou temperaturas abaixo da média.

Tendências observadas nas últimas décadas continuaram em 2014. O dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso, principais gases do efeito estufa mais uma vez atingiram concentrações médias recordes no ano.

A Europa teve o ano mais quente já registrado, com cerca de duas dezenas de países batendo seus recordes de temperatura anteriores. Muitos países na Ásia tiveram temperaturas entre as 10 mais quentes já registradas. A África teve temperaturas acima da média em quase todo o continente. A Austrália teve seu terceiro ano mais quente já registrado. Na América Latina, o México teve o ano mais quente, enquanto Argentina e Uruguai tiveram seu segundo ano mais quente. Mesmo que sejam adotadas medidas para reduzir o uso dos combustíveis fósseis, a tendência não se reverteria logo, consta do relatório.

O relatório completo foi publicado no Boletim da Sociedade Meteorológica Americana. Os dados do estudo reforçam a importância de que um acordo em nível global para a redução dos gases de efeito estufa seja alcançado em dezembro, quando representantes de 196 países estarão reunidos em Paris, para a conferência da ONU sobre mudanças do clima, a COP 21.

*Paulo Márcio de Mello
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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à responsabilidade social, ao desenvolvimento sustentável e aos Direitos Humanos.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A beleza e a intolerância
                                                                        
O plantio de árvores tem sido adotado como alternativa comum
na compensação das emissões de carbono e de outros gases.
Uma área reflorestada, no entanto,  pode levar até 150 anos
para ser totalmente restaurada na biodiversidade.
Qual a empresa que planeja com esta perspectiva de tempo, porém?

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Coluna EMPRESA-CIDADÃ
Quarta-feira, 3 de junho de 2015

u      No início da década de 1990, o engenheiro florestal Miguel Milano convenceu o fundador da empresa de cosméticos O Boticário, Miguel Krigsner, a alterar a intenção de plantar uma árvore para cada produto vendido nas lojas da rede, então vislumbrada como estratégia de marketing.

u      Na aritmética do marketing empresarial, prevaleceu a suposição da impossibilidade de se plantar a quantidade necessária de árvores, que poderia chegar a até seiscentas mil por mês. A intenção inicial foi então substituída pela criação da Fundação O Boticário de Proteção da Natureza.

u      Ao invés de plantar novas árvores, proteger áreas remanescentes de floresta, para compensar as emissões de carbono e de outros gases influentes na mudança climática, além de contribuir para conservar a biodiversidade.

u      Só quando a árvore chega à maturidade é que ela vai absorver a quantidade de carbono pretendida, o que muitas vezes é incompatível com a velocidade do crescimento da produção de mercadorias. Os monitoramentos, tanto do plantio de árvores, quanto do estoque acumulado de carbono, não cobrem o período necessário à verificação da reconstituição plena da biodiversidade, nem da integralização da cota desejada de absorção de carbono.

u      Por exigência da comunicação empresarial eficiente ao mercado, o plantio de árvores tem sido adotado como a alternativa mais frequente na mitigação das emissões de carbono e de outros gases, de tal forma que pode parecer que não há outros caminhos. A avaliação de alternativas fica assim inibida, prejudicando a possibilidade representada, não pelo plantio, mas pela conservação de florestas nativas remanescentes, no caso da Mata Atlântica, equivalente a não mais do que 3%.

u      Uma área próxima a áreas naturais conservadas pode demandar até 150 anos para ser totalmente restaurada na biodiversidade. Se não houver áreas naturais conservadas nas proximidades, no entanto, o projeto pode ser ineficiente. Qual a empresa que planeja com esta perspectiva de tempo, porém?

u      Além da preservação de remanescentes primários, outros aspectos podem ser considerados no estabelecimento de prioridades. É o caso da interligação de remanescentes secundários, equivalentes a 5% das áreas abaixo da Amazônia e das ameaças ao local a ser protegido, a exemplo da constituição de uma Reserva Natural do Patrimônio Natural (RPPN), à beira de uma rodovia, numa área potencialmente impactada pela presença humana.

u      O desmatamento evitado não gera créditos de carbono, mas é possível calcular o estoque de carbono de uma floresta e saber o quanto vale preserva-la. Como se estivessem na Idade Média, procurando uma indulgência para salvar a própria alma, algumas empresas descobriram a compensação de carbono emitido.

u      Neutralizar emissões é a nova forma de assegurar um lugarzinho no céu. Anunciam o plantio de árvores para compensar emissões derivadas de processos predatórios, como se bastasse isso, para que tudo mais esteja perdoado em matéria de danos ambientais.

u      Sejam as emissões decorrentes de um evento, ou de um show, ou de uma viagem de avião, recorre-se a projetos de reflorestamento, ainda que de eficácia discutível, na medida em que nem sempre contribuem com para a biodiversidade.

u      A “quase ética” das empresas do “eu faço a minha parte”, ao invés do fazer o que é preciso, entretanto, tem prevalecido, à medida que mais se informa sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas decorrentes, sem os necessários preparo e disposição para planejar soluções ajustadas às circunstâncias de mercados e características de empresas.

u      Em 1987, quando a Comissão Brundtland apresentou o conceito de desenvolvimento sustentável, uma intenção, expressa na sua definição, é a de que há necessidade de uma revisão incisiva nos padrões de consumo, distribuição e produção, com a adoção de estilos de vida compatíveis com os recursos ecológicos do planeta, pelos mais ricos. Esta é uma outra história, porém.

u      A Farmácia de manipulação O Boticário, criada em 1977, tornou-se uma importante referência nas boas práticas ambientais. Hoje, o Grupo O Boticário, com mais de sete mil colaboradores diretos, dos quais 70% constituídos por mulheres (48% dos cargos de chefia) e uma ampla cadeia de fornecedores, sustenta a manutenção de duas reservas naturais, através da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

u      Através delas, protege mais de 11 mil hectares dos dois biomas mais ameaçados do Brasil, a Mata Atlântica (Reserva Natural Salto Morato, em Guaraqueçaba, litoral do Paraná) e o Cerrado (Reserva Natural Serra do Tombador, em Cavalcante, interior de Goiás).

u      O Grupo Boticário, empresa genuinamente brasileira e pioneira na preservação da flora e da fauna, não realiza testes em animais e apoia a extinção dessa atividade. Adota as melhores práticas para o desenvolvimento dos produtos de suas unidades de negócios. Entre elas, utiliza os serviços de renomados  laboratórios, que adotam métodos in vitro e estudos de segurança de uso em voluntários (pesquisa clínica em humanos), dentro dos padrões éticos vigentes.

u      Atualmente, O Boticário veicula a campanha de Dia dos Namorados, em que traz diversos tipos de casais, entre eles um casal de gays e outro de lésbicas. A peça publicitaria foi criada pela AlmapBBDO, que tem o filme dirigido pelo Heitor Dhalia, da produtora Paranoid, e a campanha digital criada pela agência W3haus. O Boticário celebra a data com diferentes possibilidades de amor, lançando as sete tentações da fragrância multigênero Egeo, criadas especialmente para a comemoração.

u      Como nem tudo são flores, no entanto, inflamou grupos intolerantes com a diversidade, que estão propondo boicote ao vídeo e à marca. No Youtube, pessoas estão clicando em dislike para demonstrar seu descontentamento com O Boticário.

u      Em resposta, O Boticário afirma que acredita na beleza das relações, presente em toda a sua comunicação, e que a proposta da campanha ”Casais” é abordar, com respeito e sensibilidade, a ressonância sobre as mais diferentes formas de amor, independentemente de idade, raça, gênero ou orientação sexual. Reitera que valoriza a tolerância e respeita a diversidade de escolhas e pontos de vista.

u      Miguel Krigsner, Fundador e Presidente do Conselho de Administração do Grupo O Boticário, afirma, no Relatório de sustentabilidade 2014, que “uma companhia verdadeiramente empreendedora jamais visará apenas a lucratividade. A partir de um olhar mais abrangente e sistêmico, buscará fomentar reflexões e atitudes individuais acreditando que, gradativamente, elas serão uma grande força propulsora de transformação. Por isso, desvendar maneiras para inspirar outras pessoas e instituições a adotarem práticas similares também faz parte desse jeito maduro e moderno de fazer negócios”.

u      Enquanto a plenitude da transformação pretendida não se estabelece, continua sendo fácil amar o próximo e difícil amar o distante.

Paulo Márcio de Mello
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Os novos “navios tumbeiros”.
                                                                              
A complacência com práticas como as de roubar e furtar,
considerando-as culturais e, portanto, aceitáveis,
mesmo que dentro de limites,
tem importantes implicações econômicas,
como influenciar na concentração da renda e da riqueza,
na produtividade e rentabilidade, ou
na sustentabilidade.

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coluna EMPRESA-CIDADÃ
Quarta-feira, 20 de maio de 2015
Paulo Márcio de Mello*


◙       "Sustentabilidade significa a integração ininterrupta e amparada do nosso modelo de negócios na comunidade. Significa estabelecer um contrato de longo prazo com propósito de agregar valor à sociedade”. Esta é a definição de “sustentabilidade” de Pablo Isla. Salvo erro de tradução, não pode ser mais inespecífica.

◙       Na genialidade inesquecível de Chico Anísio, na “Escolinha do Professor Raimundo”, poderia perfeitamente constar de um diálogo entre o professor, representado pelo próprio Chico Anísio, e a personagem Rolando Lero, representada por Rogério Cardoso.

◙       Mas quem é o autor assumido da definição, Pablo Isla? Trata-se do poderoso principal executivo do grupo espanhol Inditex, detentor das marcas Pull&Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho, Uterqüe, Zara Home e Zara. Como os nomes sugerem, marcas de requintadas mercadorias, vendidas em lojas elegantemente instaladas nas principais praças comerciais do planeta.

◙       O lema do grupo é “pronto para usar”, em tradução livre (“Right to wear”, www.inditex.com). Na página do grupo, há louvações à sustentabilidade, como “a base de todas as nossas decisões de negócios. Nós nos esforçamos para oferecer aos nossos clientes produtos seguros e éticos que são feitos de forma a respeitar o ambiente e a sociedade no sentido mais amplo”.

◙       Sem especificar como, o lema desdobra-se em um amplo leque de interferências nas práticas corporativas, como gestão da sustentabilidade, zelo pelos padrões dos produtos que assegurem a saúde e segurança dos clientes, responsabilidade e trabalho a serviço dos clientes, zelo pelas práticas de responsabilidade na cadeia de valor, investimento social de forma a estreitar os laços com as comunidades com que faz negócios, e considerar os aspectos ambientais em todas as práticas de negócios. Tudo bem inespecífico.

◙       Específico mesmo é o descumprimento do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), firmado em 2011 para sanear as degradantes condições de trabalho que levaram a Zara a se utilizar de trabalho assemelhado a trabalho escravo, em sua cadeia de valor.

◙       De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 67 fornecedores da Zara foram auditados, o que resultou em 433 irregularidades verificadas. Entre as irregularidades, foram registradas excesso de jornada de trabalho, atraso nos pagamentos, acidentes, uso de trabalho infantil, discriminação por impedimento de utilização de imigrantes na produção, entre outros. A autuação pode resultar em multas da ordem de R$ 25 milhões.

◙       Em 2011, a Zara foi autuada por manter 15 trabalhadores bolivianos e peruanos em condições de trabalho análogas à de trabalho escravo em oficina de costura. Precariedade das condições de higiene, servidão por dívidas contraídas e jornada de trabalho excessiva.

◙       De lá para cá, as irregularidades persistem, sem a prometida adoção de medidas saneadoras. Na cadeia de fornecedores, foram identificadas 22 empresas com registro de jornada excessiva, e 23 com descontos não recolhidos ao Fundo de Garantia pelo Tempo de Serviço (FGTS).

◙       O relatório da Superintendência Regional do MTE indica ainda que empresas que utilizavam trabalhadores bolivianos foram excluídas da cadeia de fornecedores, caracterizando-se atitude discriminatória com restrição de acesso ao trabalho por origem ou etnia do trabalhador. Foram fechados ainda cerca de 3,2 mil postos de trabalho, em consequência da fuga de fornecedores para outros estados, a fim de escapar da fiscalização.

◙       Nos dez últimos anos cobertos pelas estatísticas divulgadas pelo Ministério Público do Trabalho (http://portal.mte.gov.br/data), de 2004 a 2013, foram resgatados 35.362 trabalhadores da condição de trabalho em condições análogas à de trabalho escravo no Brasil.

◙       “Navios negreiros” ou “navios tumbeiros” eram os nomes dados às embarcações que transportavam os escravos originários da África para o Brasil. O lucrativo comércio de escravos enriqueceu também os donos deste tipo de transporte. As embarcações, desenvolvidas para este fim, eram carregadas de um contingente excessivo de pessoas, para compensar as grandes perdas, que as condições desumanas de saúde, higiene e segurança determinavam.

◙       Os novos “navios tumbeiros”, com grife e requinte, arrastam até os nossos dias as lucrativas práticas escravistas, dissimuladas pelo discurso inespecífico e pelo brilho das vitrines, nos mais sofisticados endereços das capitais do mundo.



Paulo Márcio de Mello
paulomm@paulomm.pro.br
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

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pesquisas, resenhas, editais ou agenda, relativos à sustentabilidade,
à responsabilidade social e ao desenvolvimento sustentável.




quarta-feira, 6 de maio de 2015

Aqui não tem terremoto
                                                                              
A complacência com práticas como as de roubar e furtar,
considerando-as culturais e, portanto, aceitáveis,
mesmo que dentro de limites,
tem importantes implicações econômicas,
como influenciar na concentração da renda e da riqueza,
na produtividade e rentabilidade, ou
na sustentabilidade.

blog do professor paulo márcio
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Coluna EMPRESA-CIDADÃ
Quarta-feira, 6 de maio de 2015
Paulo Márcio de Mello*

►Há no Brasil mais de 860 shopping centers, reunindo mais de 130 mil lojas e público acima de 470 milhões de pessoas. São dados da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (ALSHOP). O faturamento consolidado em shoppings superou a marca de R$132 bilhões, em 2013. Roubos e furtos representam cerca de 70% das ocorrências de perdas no segmento. Os itens mais visados, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), são desodorantes, aparelhos de barbear, chocolates em geral, carnes e bebidas (com destaque para uísque e vodka).

►Em consequência, o Brasil representa um mercado de segurança expressivo. O segmento de segurança eletrônica, em particular, segundo pesquisa da Security Industry Association (SIA) que, em 2011, representava R$ 1,2 bilhão, tem potencial de mercado de R$ 3,7 bilhões, até 2017. Os itens mais demandados são circuitos fechados de TV, alarmes e controladores de acesso.

►As perdas por furto ou roubo no setor supermercadista que, em 2008, foram de 2,36% do faturamento, declinam ano a ano: 2,33% em 2009; 2,26% em 2010; 1,96% em 2011; e consolidando as perdas de todos os tipos, em 2012, alcançou R$ 4,74 bilhões, equivalentes a 1,95% do faturamento de R$ 242,9 bilhões.

►Apesar das cifras bilionárias, apenas 28% dos supermercados priorizam a prevenção de perdas internas ou externas. Sobretudo quando os seus números estão na média, ou abaixo dela. É como se “estar na média” significasse estar enquadrado na cultura vigente. Restaria então externalizar este custo, transferindo-o para o bolso da população.

►O índice médio de perdas de 1,95% do faturamento, em 2012, apurado pela 13ª Avaliação de Perdas no Varejo Brasileiro (Abras-Provar FIA-Nielsen), não se distribui de forma homogênea pelos diferentes segmentos do setor. Entre pequenos supermercados, ele é mais de três vezes o índice médio, alcançando perdas equivalentes a 6,7% do faturamento.

►Se observadas as segmentações do varejo, podem ser constatadas, por exemplo, perdas entre os grandes varejistas de farmácias e drogarias de 0,33% do faturamento, enquanto entre pequenos chega a 4,6%. Em materiais de construção, o índice das perdas entre os grandes varejistas é de 1,02%, apurado sobre o faturamento. Já entre os pequenos, alcança 11,4%.

►Entre as micro e pequenas empresas, o impacto da corrosão gerada pela cultura de tolerância com as perdas por roubos e furtos pode chegar a comprometer a sustentabilidade. Apesar da importância de representarem quase metade dos empregos do setor privado e mais de 95% dos estabelecimentos no Brasil, elas apresentam um índice 5,37 vezes maior do que as médias e grandes empresas (pesquisa Sebrae-Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo Ibevar).

►Outro estudo, desta vez realizado pelo Centro de Pesquisas do Varejo, da Grã Bretanha, englobando 1069 empresas, de 41 países, situa o Brasil entre os 10 mais, em perdas no varejo provocadas por roubos, furtos e falhas processuais, como erros contábeis, alternando posições com Índia, Marrocos, México, África do Sul, Turquia, Tailândia e Eslováquia.

►Após a deflagração da crise econômica, em 2008, houve um aumento generalizado das perdas, ressaltando-se os índices deste aumento da Itália (54,2%), África do Sul (52,6%) e EUA (51,7%). Na América Latina e América do Norte predominam as perdas por causas internas e na Europa, Ásia, Oriente Médio e África a predominância é de perdas provocadas por “clientes”. No Brasil, o estudo apresentou 41,2% das perdas causadas por empregados, 33,8% por clientes, 8,2% por fornecedores e 16,8% por erros de gestão.

Paulo Márcio de Mello
paulomm@paulomm.pro.br
Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

A coluna EMPRESA-CIDADÃ é publicada, desde 2001, toda quarta-feira,
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